Matheus Peleteiro, a sátira como resistência em “O Ditador Honesto” [ENTREVISTA]



Não me assustarei se chegar o dia em que uma apresentação a Matheus Peleteiro será desnecessária. É inegável o talento do jovem escritor baiano. Autor de “Mundo Cão” (romance), “Notas de um megalomaníaco minimalista” (novela), “Tudo que arde em minha garganta sem voz” (poesia), “Pro inferno com isso” (contos), Matheus Peleteiro estará lançando hoje (11/08 das 13h às 14h) e amanhã (12/08 das 18h às 19) seu mais novo trabalho: “O Ditador Honesto”, na Bienal de São Paulo.

As palavras que seguem são sobre a atual conjuntura literária e sobre como sua obra é inserida nela. Em especial, falamos sobre “O Ditador Honesto”.

Foto: Arquivo pessoal do autor


Aliedson Lima – A primeira e a última pergunta de minhas entrevistas são clichês que não vejo necessidade de abrir mão. Vamos lá: quem é Matheus Peleteiro?

Matheus Peleteiro Ah... As perguntas clichês são as mais difíceis. Incumbem ao entrevistado um suposto dever de inovar, quando, na realidade, não se têm muito o que dizer sobre. Acho que fico com a forma que me apresentei no “O Ditador Honesto”: sou aquele que ainda insiste em acreditar na literatura como um instrumento de mudança e na sátira como uma forma de resistência.

A. L. – Você já transitou pelo romance, novela, poesia, conto, ensaio e agora esse novo romance do qual falaremos, uma distopia – que percebemos ser ambientada no Brasil, vale lembrar. O que seu leitor pode esperar pela frente? Crônicas? Textos pro teatro? Pro cinema? Teoria literária? Um “Cinquenta tons de blablablá”?

M. P. Textos para teatro e o cinema são gêneros que me atraem, mas quanto aos outros citados, mantenho distância, rs. Talvez escreva uma fábula, em breve. Já tenho o esboço.

A. L. – Se em sua obra há uma pluralidade quanto à forma, há um elo unificador no tema: o homem e sua existência conflituosa. A última interrogação acima foi uma “zoas” para falarmos sobre o mercado. Como o mercado encara este tipo de produção artística que se assemelha à sua obra? 

M. P. Ele acolhe algumas e rejeita outras. A poesia, por exemplo, é uma piada no mercado editorial. Editoras que publicam livros de poesia são constantemente chamadas de guerreiras e elogiadas – por poetas, é claro. Percebo que o público, os leitores, encaram bem a minha pluralidade, embora gostem mais de romances, porém, quando falamos de mercado, falamos também de distribuição, de comercialização e visibilidade. Neste sentido, acredito que ainda preciso de mais alguns milhares de seguidores nas redes sociais para que possa ser abraçado por esse “mercado”, que também pode ser chamado eufemisticamente de indústria nos tempos atuais, rs. Mas, enquanto isso, tenho me inserido de forma positiva. Cada dia sou mais lido, isso é bom.

A. L. – Uma pesquisa do Instituto Pró-Livro, realizada em março de 2016, revelou que o brasileiro lê em média 2,43 livros por ano. Além disso, o estudo diz que “30% da população nunca comprou um livro”. Matheus Peleteiro, como um autor nacional sobrevive em meio a esses números?


M. P. Agricultura de subsistência, formação em advocacia, formação em medicina, revisões, traduções, são muitas as formas a se considerar, mas nenhuma delas é a literatura. Se um escritor quer sobreviver de literatura e não de palestras, precisa investir muito nas redes sociais ou procurar algum outro emprego que, necessariamente, irá atrapalhar a sua produção, assim como Bukowski e os correios. Ou um escritor vende a sua literatura ou morre por ela. Porém, Bukowski venceu encontrando um meio-termo entre essas duas máximas. Minha meta é alcançar um novo meio-termo na sociedade moderna.

A. L. – Somado a este problema da média de leitura, temos o problema do mercado que – muitas vezes por uma medida de sobrevivência ao primeiro problema – acaba condicionando o leitor a ler os estrangeiros do momento, os youtubers, a uma pequena elite de nossa literatura que já construiu um nome, etc. A impressão que fica para o leitor é que a literatura nacional contemporânea é carente de bons nomes. Gostaria que citasse alguns escritores que você gosta e que, por essas e outras razões, acabam marginalizados e/ou não recebem o reconhecimento que merecem.    

  
M. P. Nos dias de hoje, acredito que, para publicar um livro, o autor deve achá-lo incrível, e não apenas um bom livro, haja vista a enorme quantidade de trabalhos existentes. Porém, embora a poesia esteja muito bem por aqui, tenho encontrado pouquíssimos romances contemporâneos que realmente me inquietem. Sinto falta dos livros que golpeiam. Talvez por isso João Ubaldo tenha dito, quando já bem velho, que a partir de então só leria os clássicos.  Os grandes livros sobrevivem. De fato, existem coisas muito boas acontecendo, mas já não temos tempo nem paciência para garimpar, e o mercado está inflacionado por escritores que publicam livros somente para suprir seus sonhos de serem escritores ou seus vícios de prolixidade...

Posso dizer que sou um verdadeiro garimpeiro da literatura contemporânea, porém, confesso que mais me decepciono pela normalidade e quantidade de obras “ok”, que trazem mais do mesmo, que me surpreendo. Porém, a cada 10 autores que me decepcionam, um me enche os olhos, seja por conta de elementos trazidos do dia-a-dia, que me encantam através de peculiaridades na maioria das vezes brasileiras, seja por conta da abordagem de assuntos que considero primordias. Provavelmente esquecerei de alguns, mas posso citar: Diego Moraes, Fabiano Lima, Rojjeferson Moraes, Joe Arthuso, Aline Bei, Verena Cavalcante, Aliedson Lima, Carlos Almir, Ana Flavia Sarti, Ian Viana, Roge Weslen, Bruno Goularte, Vitor Oliva, Fernando Koproski, Mario Bortolotto, Alexandre Rabelo, Jacques Fux, Antonio Fernando Borges. A maioria deles, poetas.

"Um artista não pode ter rabo preso, a única responsabilidade dele deve ser com a verdade expressa no seu trabalho. E se ele for humanamente terrível, que as pessoas o utilizem para compreender o humanamente terrível."


A. L. – O crítico literário Jonatan Silva disse que O Ditador Honesto é um periscópio saído da lama”. Fale-nos um pouco sobre este periscópio. O que o leitor verá através dele?

M. P. O que já é evidente, rs. Se eu disser, terminarão as interpretações e enxergarão somente o que digo aqui. Então, espero apenas que o livro seja como dois dedos forçando os olhos dos eleitores que buscam heróis a se abrirem.

A. L. – Apesar de não haver grandes conflitos na narrativa de sua sátira, você conseguiu armar uma grande tensão já nas primeiras páginas. Tensão que percorre de forma sedutora por toda narrativa, até culminar num final um tanto shakespeariano. O que permeia O Ditador Honesto é o riso de nossa própria estupidez. Gostaria que falasse um pouco sobre o processo de construção da obra. Além disso, como conseguiu tirar o enfado de um tema como a política?  

M. P. Ah, foi muito difícil tirar esse enfado, rs. Acredito que tirei pois sempre busco escrever um livro que gostaria de ler se fosse eu o leitor. O livro surgiu a partir da minha indignação, e requereu certo estudo, em diversos momentos, porém, o riso de nossa própria estupidez, como disse, acabou tornando-o leve e, por isso, para mim, mais interessante. Eu poderia desenvolver o livro em busca de uma lição de moral, de uma solução, mas decidi apenas desdenhar. Acho que isso tirou o enfado da política.

A. L. – Abre o livro uma epígrafe de um trecho de Hitler (a segunda). Na narrativa, o próprio Gutemberg Luz, o “ditador honesto”, em determinado momento, é comparado a ele. Vemos também uma referência ao Churchill, além de várias citações de Maquiavel. Na construção de seu narrador, houve um personagem histórico como plano de fundo? Alguém o inspirou?

M. P. Não. Gutemberg Luz, o “grande astro da história” é um sujeito perspicaz que estudou todas essas figuras para compreender como se conduz uma nação. Ele não foi inspirado em nenhum deles, mas pode ser considerado uma espécie de miscelânea de todos eles.

A. L. – No prefácio, você ressalta que, apesar do caos em que nos deparamos, “o artista encolheu a sua irreverência em razão do medo da má repercussão social; o atrevimento e a ambição se tornaram adjetivos pejorativos”. Comente esta afirmação.

M. P. Ah, a militância tem destruído a arte. Muitas vezes ela tem razão em contestar, mas limitar, calar, censurar, isso é muito triste. Os artistas têm demonstrado um medo muito grande ao se expressar, como pode? Como pode um escritor pensar duas vezes antes de escrever uma linha com medo de que interpretem de determinada maneira? Como pode um músico compor versos imaginando o que as pessoas vão achar? O conceito de contestação foi substituído por censura na contemporaneidade, isso é preocupante. Um artista não pode ter rabo preso, a única responsabilidade dele deve ser com a verdade expressa no seu trabalho. E se ele for humanamente terrível, que as pessoas o utilizem para compreender o humanamente terrível.

A. L. – Rubem Fonseca, uma grande referência pra você, disse em uma de suas raras palestras que para escrever "Agosto" empreendeu uma pesquisa que levou meses. O tema desse romance são os últimos dias de Getúlio Vargas, aquele agosto de 54. Em sua distopia, o “Ditador” é situado no ano de 2026, ou seja, sem um cunho histórico. Apesar da liberdade em estar criando outra realidade – que não deixa de ser a nossa – gostaria de saber se houver algum tipo de pesquisa para retratar este tema.

M. P. Inicialmente não pesquisei muito, apenas estruturei a sátira a partir de minha narrativa, porém, quando o primeiro esboço ficou pronto, notei que precisava argumentar alguns pontos de forma mais sólida, e então li alguns artigos críticos e afins que, obviamente, não serão notados, pois embora tenha lido textos escritos de forma acadêmica, os converti em sutis alfinetadas, rs.

A. L. – Matheus Peleteiro, por que as pessoas devem ler O Ditador Honesto?

M. P. Bem, eu não sei nem mesmo dizer o porquê de as pessoas deverem existir, contudo, posso dizer que ler O Ditador Honesto é uma forma de resistir. Vejo a sátira num ambiente sem perspectiva de melhora como uma nobre forma de resistência. Ler O Ditador Honesto talvez seja uma forma de dizer não.

A. L. – No livro, não lembro de ter lido as palavras “esquerda” e “direita” com uma conotação política. Vi um falso elogio ao fascismo – de onde parte a sátira. Nele, o novo presidente censura os órgãos de imprensa, legaliza o porte de armas para os cidadãos, instaura a pena de morte, entre outras medidas. E, naquela realidade, tais medidas surtem efeitos positivos, levando o país a uma harmonia nunca antes alcançada. Peleteiro, em algum momento você cogitou que pudessem usar esse discurso na tentativa de “mitar”?

M. P. Certamente, mas considero o que está escrito mais importante que a forma com que podem utilizar o discurso. O livro apresenta essa “interpretação de conveniência” o tempo inteiro durante a história, com as interpretações não poderia ser diferente. Alguns vão julgar o livro uma utopia, outros uma distopia. Para alguns, o cenário criado por Gutemberg é, de fato, um paraíso. Para outros, um inferno. Eu não sei muito bem distinguir os dois, por isso, prefiro não classificar.

A. L. – Agora percebi que esta última pergunta devo ao grande Antônio Abujamra. Matheus Peleteiro, há alguma pergunta que você gostaria de responder e não foi feita? Se sim, faça-a e responda-a.

M. P. Eu gostaria de falar sobre a comicidade das interpretações. Talvez a pergunta pudesse ser “você acredita que os leitores conduzirão a sua obra como uma crítica à determinada ideologia?”. Acho isso interessante, pois muitos leitores leem tentando me desvendar, tentando afirmar que bandeira estou tentando defender por trás da história que escrevi. Acho isso engraçado, pois, podem me condenar como pedante por não ter esperança de lado algum, podem me condenar irresponsável pelo mesmo motivo, mas não tenho fé nenhuma em nenhum deles e, por isso, trago a público a minha obra em desrespeito a todos esses lados.

A. L. – Aqui deixo os meus sinceros agradecimentos, desejando-lhe um bom êxito com O Ditador Honesto, que é indispensável a todos aqueles que desejam repensar nosso caótico cenário político.

M. P. Eu que agradeço pelo espaço, Aliedson! É sempre um prazer. Agradeço muito pelo carinho e atenção com o meu trabalho. Forte abraço!

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Diretamente com o autor, através do e-mail: matheus_peleteiro@hotmail.com

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 Sobre o autor:
Nascido em Salvador – BA em 1995, escritor, tradutor, poeta e contista, Matheus Peleteiro publicou em 2015 o seu primeiro romance, Mundo Cão, pela editora Novo Século. Em 2016, lançou a novela intitulada "Notas de um Megalomaníaco Minimalista" (editora Giostri) e o livro de poemas "Tudo Que Arde Em Minha Garganta Sem Voz" (editora Penalux). Em 2017, publicou "Pro Inferno com Isso", seu primeiro livro de contos. Em 2018, assina, ao lado do tradutor Edivaldo Ferreira, a tradução do livro "A Alma Dança em Seu Berço" (editora Penalux), do poeta dinamarquês Niels Hav.


Cartas a um jovem escritor - Jania Souza


Jamais desistas da tua escrita


Fico realmente chateada, até irada interiormente, embora seja um ser em busca de paz e equilíbrio para coexistir nesse mundo de Deus, quando alguém joga pedra e destrata o texto de alguém. Principalmente quando esse alguém é um aspirante à escrita. Ninguém tem o direito de roubar o sonho do outro. Embora os cânones existam, fruto do árduo serviço de tantos que nos antecederam, eles serão úteis à medida que o trabalho literário se desenvolve e cresce. O exercício da escrita naturalmente vai burilando o fazer literário do escritor, que sempre começa nos bancos escolares. A escola é o local onde as primeiras ferramentas da escrita são apresentadas a todos nós. É o local onde nasce, também, esse amor quase de parceiro carnal entre o papel e os dedos, entre o livro e o infante leitor, que se transformará em paixão e amor de amantes ao longo dos anos. Disse, também, porque em casa, na família, a criança é incentivada a descobrir o mundo encantado dos livros, onde histórias são contadas e fazem nascer na criança a vontade de contá-las e, posteriormente, registrá-las através da escrita. Essa constatação garante-nos quão importante é o incentivo e a valorização dos escritos infantis que encontrarão suporte nos cânones apresentados na educação formal de cada nação. Despertando o interesse no(a) estudante para registrar sua criatividade no papel ou em outro meio apropriado. As críticas durante esse processo devem ser construtivas, para auxiliar no crescimento evolutivo do aspirante a escritor, que concretizará seu sonho com a publicação do seu livro. É um caminho espinhoso. Apenas os perseverantes conseguem alcançar seus objetivos como em quaisquer áreas da vida. Primeiro tem que acreditar em si mesmo. Confiar na qualidade de seu trabalho. Encontrar formas de apresentá-lo. Valorizar apenas as críticas e sugestões construtivas, que vão acrescentar aquele algo mais ao seu trabalho. Publicar nas redes sociais, em jornais, folhetos, revistas, panfletos e outros canais. Enviar seus textos para editoras. Associar-se ou fazer parte de entidades culturais, artísticas e literárias. Juntos somos mais fortes, um slogan que funciona. Meu jovem escritor, acredite e ame seu ofício. Lute pela materialização dele e o divulgue. Não é fácil, mas essa é a sua contribuição na melhoria do mundo. Leve sua mensagem através das letras para todos os cantos e recantos desse nosso pequeno e tão enorme planeta. Com suas palavras e versos habite para sempre o coração da Terra. Por isso, jamais desista da sua escrita. Ela é o seu legado ao leitor.

Jania Souza
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Sobre a autora: 
Jania Souza é escritora brasileira, que nasceu na cidade de Natal, no estado do Rio Grande do Norte, terras potiguares; também é poeta, artista plástica, economista e contadora. Tem ativa participação no movimento literário e cultural de sua cidade e do seu país, por gostar de compartilhar seus livros com histórias e poemas com as crianças, os adolescentes e com público adulto. Publica literatura infantil; infanto-juvenil, poemas, crônicas, contos. Sócia de entidades culturais nacionais e internacionais. Pode ser encontrada na rede de comunicação social em:
www.janiasouzaspvarncultural.blogspot.com




Antônio da Cruz, o artista e seu ofício [ENTREVISTA]


Percussão sobre o aço, na construção da obra
“Contra todas as forças que nos oprimem". Por Márcio Garcez.

    A primeira vez que dividi o mesmo espaço que Antônio da Cruz foi na quarta edição do Encontro de Escritores Canindeenses. Mas naquele dia não conheci ninguém. Meus nervos dançavam: além de ser o dia da publicação de meu primeiro livro, incumbiram-me de palestrar sobre algo em que não me via preparado, até então.
   Ainda no mesmo ano, 2017, conheci o Cruz no Encontro Santanense – já em terras alagoanas. Devido à dinâmica do evento, trocamos poucas palavras. Naquele dia voltei para casa com seu livro Crônicas do ateliê na mochila. Depois da leitura deste e do deleite com as fotografias de Nailson Moura, soube que tinha apertado a mão de um artista que gravará seu nome no metal da história da arte sergipana.
    Na entrevista que segue, Cruz parte de sua própria trajetória artística para nos revelar um olhar arguto sobre temas importantes que dizem respeito ao ofício do artista, tais como: o fazer artístico, a sobrevivência do artista no século XXI, as leis e programas de incentivo à arte e cultura, a crítica, a arte – conceito, gozo, porvir, etc.  

Aliedson LimaQuando você ouve ou ler o nome “Antônio da Cruz”, de quem você lembra? Quem é Antônio da Cruz?
Antônio da Cruz – Um sujeito que percorreu 61 anos de estrada, vivendo algumas experiências interessantes e que, mesmo com tal idade, tem sonhos a realizar.  O indivíduo que desde criança levou em consideração a possibilidade de ser artista, mesmo sabendo ser difícil, observando a biografia de grandes nomes da arte universal e os exemplos bem próximos.

A. L.Fruto do projeto “Brotando das mãos”, o livro Crônicas do ateliê (2014) traz uma belíssima homenagem a você, marcando seus quarenta anos de carreira. Nele Nailson Moura fotografa Antônio da Cruz. Conte-nos um pouco mais sobre esta experiência.
A. C. – Nailson estava tocando o projeto Brotando das Mãos, quando me encontrou numa mobilização social e falou da necessidade de ter entre os seus fotografados, alguém que lidasse com metal. O projeto tem como tema pessoas que manuseiam os materiais para produzir utensílios domésticos, instrumentos musicais, canoas, enfim.... O importante é que não seja produção em escala industrial. Eu topei e ao longo de três meses, duas vezes por semana, ele me acompanhou na labuta do ateliê. Foi bom, porque unimos o projeto dele com a minha vontade de comemorar meus 40 anos de atividade. No livro temos três narrativas: uma imagética, as fotos de Nailson; a segunda é formada pelas legendas das fotos, que descrevem sinteticamente o que faço; e a terceira pelos treze artigos que selecionei, dentre aqueles que se aproximam mais do gênero crônica, dos vários produzidos por mim, enquanto colaborador de jornais durante um bom período.

A. L. Sua carreira artística começa em 1974, com a pintura. Em 1989, passa a domar o aço, quando deixa os pincéis de lado. Permeando esses processos, a escrita. Cruz, em qual dessas situações você encontrou maior facilidade e satisfação em materializar seus anseios artísticos?
A. C. – Desde os primeiros contatos com os livros e revistas percebi que, tanto no manejo dos materiais, quanto na escrita eu poderia, inicialmente, aprender e no futuro me sentir realizando algo significativo que viesse a contribuir para a sociedade. Sem dúvida, as artes visuais chegaram primeiro com muita intensidade e, ao longo do tempo, fui encarando como desafio cada trabalho surgido e nova técnica que experimentava. Cada desafio é uma experiência e uma emoção que nem sempre o resultado é satisfatório, a não ser por ter aprendido com a dificuldade encontrada. A escrita veio com o amadurecimento e a militância social. Em 1987 junto a outros poetas lançamos “Dimensões”, com alguns poemas engajados. Escrevi muitos artigos para boletins do movimento social, assim como tenho ao longo desta trajetória colaborado com jornais e revistas, o que é um bom exercício e que dá satisfação. Não há dúvida que a escrita me completa sob certo aspecto. Ela dá sentido prazeroso por me inserir em um rol de pessoas cujo uso da palavra é fundamental. Dominar a palavra é engendrar e apreender conhecimento.  Agora, evidentemente, as artes visuais me deram maior lastro e o meu trabalho ganhou maior visibilidade. Consequentemente, os resultados nesta área têm sido bem mais satisfatórios.  

A. L.Pensemos na seguinte situação: um visitante de um museu esquece seus óculos numa determinada sala e, em pouco tempo, o objeto vira a atração, a obra mais curiosa e a mais selfieada do museu. Ainda sabemos o que é arte, Cruz? O que você entende por arte?
A. C. – Se “o tempo é líquido”, a verdade é volátil, neste mundo de mudanças bruscas. A “desmaterialização da arte” já foi tema da Bienal de Arte de São Paulo e provocou bastante polêmica. Bem antes disto, os dadaístas no início do século XX quebraram os conceitos estéticos e a estruturação racional da arte. Hoje se valoriza mais a ideia-prima à obra-prima. Sendo a poesia ação, a arte na sua poética se presta a provocar inquietações deste tipo. Sim, os óculos poderiam ser, conceitualmente, uma obra de arte, assim como o bidé de Marchel Duchamp se caracterizou como arte. Entra aí não apenas a forma, a cor, o desenho, mas o contexto para validar o conceito de obra de arte. Acredito que, com a arte contemporânea se elasteceu exatamente isto, o conceito do que seja arte. Não somente a matéria física, o quadro pintado, a escultura advinda de uma habilidade no manejo do pincel e do formão, no amalgamento dos materiais, mas, também, da intenção estética, a insinuação prosaica de nos fazer refletir, de nos tirar da mera contemplação. Isto sem invalidar o que já temos consagrado como arte. Não se pode dizer, por exemplo, que os classicistas e modernistas não valem mais, mas sim, que eles tiveram os seus respectivos tempos. Nesta elasticidade do termo, posso dizer que:  - mesmo não sendo novidade – arte é tudo que possa validar o espírito criativo humano com graduações de complexidade.

A. L.Em uma das crônicas que acompanham as fotografias do livro, você nos fala sobre o embate entre o artista e o crítico. Trazendo a coisa pra si, como você lida com a crítica?

A. C. – A crítica é fundamental para o amadurecimento do artista e, por consequência, do trabalho. Gostaria que tivéssemos, em Sergipe, efetivamente pessoas que se prestassem a exercitar a crítica rotineiramente. Temos os artigos casuais de um Rian Santos, no Jornal do Dia; da Suyene Correia que fazia a coluna cultural do Jornal da Cidade, Bangalô Cult.  Há muitos textos em blogs espalhados pelo mundo infinito da internet, que não se constituem críticas, mas recortes biográficos. Os textos de apresentação de exposições e catálogos estão mais perto de resenhas, não propriamente da crítica. A melhor forma de lidar com a crítica é estar consciente de que, sem ela a gente acha que já fez tudo do bom e do melhor, o que é muito enganador. Em tendo de lidar com ela analisarei sempre como um recado para não deixar cair a qualidade do meu trabalho.

 

A. L.É de seu punho a frase: “Querer ser artista ainda é correr todos os riscos de enveredar pela marginalidade social.” Após quarenta e quatro anos de produção, você ainda vê sua obra como marginalizada?
A. C. – Por não se caracterizar como objetos utilitários, as obras de arte não são normalmente “consumidas” como os demais. Ao artista cabe um esforço hercúleo viver dela, pagar as contas e ter o retorno para reinvestir. O retorno é sempre penoso. Para não cair na armadilha de jogar todo o peso na produção autoral e degringolar, o artista se vira: ministra aula; faz artesanato; trabalha como designer publicitário; se tem conhecimento na área industrial se emprega, também vai desenhar; atua como produtor, enfim... “se vira nos trinta”. Isto, além de enfrentar resistência, muitas vezes, na própria família, pois ela quer o retorno financeiro imediato, vitalício e hereditário. E isto tudo é muito diferente de praticar arte por diletantismo. Noutro aspecto, é interessante observar que, quanto mais a obra é autoral, maior é a dificuldade de aceitação por parte do público conservador. Falo daquela na qual todas as peculiaridades fazem a diferença da obra de um artista para outro e esta obra não se encaixa nos parâmetros tipo: lugar-comum.  Isto é diferente da encomenda, onde o cliente diz o que quer e como quer.  Tenho obras interativas que demoraram quase 20 anos para serem adquiridas. Diante deste quadro, é na militância simbiótica profissional/cultural que artistas se mantêm com garra fazendo arte. Nos nossos tempos artistas não podem esperar mecenas aparecerem nas esquinas para os salvarem, do contrário se tornam ignorados com suas obras.

A. L.Para dar um tiro na vaidade dos poetas que nunca se questionaram o que é poesia: “O esforço é, a partir do aço, fazer poesia.” Você consegue imaginar sua vida sem essa labuta diária, essa busca incessante pela poesia que encontra nas artes plásticas?
A. C. – Sim, só imagino substituir tal labuta pela escrita. Mas, o desafio do aço é muito grande e prazeroso ao término do trabalho. Poucos se habilitam a tal labuta. As ferramentas que disponho são poucas. Mesmo lidando com as mãos, martelos e algumas ferramentas rotativas, de modelagem e de corte, muito do processo tem na imaginação o atributo mais importante. Ao criar um desenho, em função do desafio deste desenho preciso perseguir a tridimensionalidade. Desenvolver métodos e encontrar um recurso particular para cada caso ser resolvido é parte do cotidiano nesta atividade. Costumo dizer que a metáfora é a materialização do impossível. Fazer poesia visual para mim é dar tridimensionalidade, cor, textura e movimento ao etéreo, ao antes inexistente e a esta criação dar um título que suscite ter vindo de atividades físicas, cerebrais e emocionais. A minha primeira exposição individual com esculturas foi “Atos de Criar”, no SESC Aracaju, em 1997. Os títulos das obras sugerem ação, como: “Indignação”, “Impulso”, “Desfragmentação”. O gostoso está em olhar a peça acabada e duvidar que fui eu mesmo que a fiz com tão parcos meios. A conclusão da obra na sua dimensão poética está no olhar do espectador, daquele que irá se deliciar, fruir esteticamente; refletir diante dela.

A. L.Assim você finaliza um texto: “Dada à inventividade exigida do artista contemporâneo, ele não se prenderá aos conceitos tradicionais de estilo, técnica ou tema. Ficando ao seu livre-arbítrio não mais a busca da obra-prima, mas a ideia-prima.” Gostaria que explanasse sobre o tema.
A. C. – É uma referência à linha do tempo da história da arte. Se os homens das cavernas praticavam a arte como parte de um ritual sagrado, fosse por agradecimento à mãe natureza ou porque pensavam que, por pintar um animal, logo o aprisionariam magicamente, ao longo da história os antigos prosseguiram justificando o fazer artístico atrelando à superstição e à celebração das vitórias massacrantes dos generais, imperadores e nobres. Com o movimento modernista começou a dessacralização da arte, e a remoção dela do posicionamento do pedestal nobiliárquico. Com a contemporaneidade fica evidente que a arte é feita por humanos para todos os humanos, e não para uma elite social, religiosa ou política.  As ideias por si passaram a ser valorizadas como uma crônica, diariamente, instantaneamente, mesmo que sejam bem prosaicas, sutis, aparentemente desimportantes. Dá-se a valorização da arte do cotidiano, não importa se complexa ou singela, mas bem próxima às pessoas comuns. Às vezes vejo nos muros grafitadas   ideias geniais que poderiam estar numa grande galeria, mas estão ali, acessíveis ao público. Alguém que pintou um rosto no muro logo abaixo de uma árvore. A ideia de sugerir harmonia entre o ser humano e a natureza é muito importante nos dias de hoje. Para a arte, criar situações plásticas/visuais será sempre muito mais importante do que imitar a natureza simplesmente.

A. L.As leis e projetos que incentivam à produção artística no Brasil são suficientes?
A. C. – Complexos e desestimulantes são os dispositivos oficiais de incentivo à cultura. Os nossos artistas não estão habituados a lidar com a burocracia e precisam das figuras do produtor, do elaborador de projetos, do captador de recursos, no caso da Lei Rouanet, que visa mais atender o mercado, ou seja, àqueles artistas que alcançaram o estrelato. Melhora é quando saem os editais específicos para cada área, bancando o projeto pelos fundos de cultura estaduais e municipais.  A seleção dos trabalhos concorrentes, no entanto, estreita oportunidades. Muita gente boa fica de fora dos benefícios proporcionados por esses dispositivos. Espera-se que, com a implantação do Sistema Nacional de Cultura melhore. Difícil é alguém convencer os gestores que o sistema deva ser implantado. Para eles é muita obrigação administrar o sistema e garantir democraticamente que o maior número de pessoas tenha acesso, tanto à produção quanto à fruição da arte e da cultura. Mesmo sabendo que entra dinheiro no caixa. O Sistema Nacional de Cultura, além visar democratizar, possibilita acabar com o clientelismo. Como é verba carimbada, os prefeitos não podem remanejar. Isto não é vantagem para eles. O atual governo federal está carreando dinheiro da cultura para a segurança. Enquanto nos países ditos civilizados aumentam as verbas de educação e cultura, para diminuir a violência, no Brasil, com a cultura das medidas corretivas, despreza-se a prevenção, que é dar ocupação, conhecimento e lazer aos jovens.

A. L.Quem o acompanha nas redes sociais sabe sobre seu engajamento político. É possível dissociar o cidadão engajado do artista engajado? Faz-se necessário ao criador engajar sua criação?
A. C. – Sim, o artista pode muito bem separar a arte do engajamento político. As minhas concepções, no entanto, têm como elemento principal o ser humano. Posso engendrar tanto uma abstração, quanto uma metáfora visual bem figurativa, ambos de cunho social ou não. Não há dúvida que os temas sociais estão muito presentes na minha obra, porque quem me conhece, já de pronto, convida-me para tratar de questões prementes da luta social. Fiz charges por um longo período de militância. Obras, como a da fachada do Sindipetro e a homenagem aos garis e às margaridas têm caráter social explícito. Mas também podem ser encontradas no meu portfólio figuras aladas, metamórficas que nada têm de engajamento, pois são fantasias, metáforas visuais feitas para suscitar espanto e inquietação estética. O cidadão engajado e o artista engajado convivem em mim, porém, sei que me tornaria muito desagradável se não soubesse identificar os momentos adequados para falar de política.
Detalhe do livro "Crônicas do ateliê". Na imagem em detalhe,  Cruz aparece
fotografando sua obra que homenageia às Margaridas e os Garis. Por Nailson Moura.
A. L.Antônio da Cruz também é escritor. Nas Crônicas do ateliê, disserta sobre assuntos complexos de forma sutil, mas sem perder a eloquência. Há projetos futuros para a escrita? Vem livro novo por aí?
A. C. – Sim, projeto é o que não falta. Faltam mesmo os recursos. Dentre os projetos, tenho um de transformar em livros as minhas experiências técnicas e estéticas com o aço. Posso fazer isto a partir de dois artigos acadêmicos já publicados no âmbito da Universidade Federal de Sergipe. Um dos artigos produzidos por mim, a convite do Grupo de Pesquisadores de História da Arte, e o outro pela professora e pesquisadora Fernanda Kolming. Eu trabalho com dois recursos que são o Banco de Ideias e as Notas de Oficina. São anotações feitas na oficina passíveis de conversão em pequenos volumes.  Tenho também o projeto de uma série de livros com poemas de fases distintas, além de outro de contos. Quando serão realizados não sei. A empreitada está por começar.

A. L. Há alguma pergunta que você gostaria de responder e não foi feita? Sinta-se à vontade para fazê-la e respondê-la. 
A. C. – Ih! Aí a entrevista não acabaria Rsrsrs.
A. L. Aqui deixo os meus sinceros agradecimentos, desejando-lhe todo o sucesso possível. 
A. C. – Eu que agradeço pela oportunidade. Obrigado. Sucesso para você também.

Sobre o autor:

Antônio da Cruz, por Nailson Moura
Antônio da Cruz, ativista cultural, é sergipano de Maruim, mora e trabalha em Aracaju.
Cruz é ilustrador, chargista, desenhista técnico, pintor em várias técnicas e escultor. É um artista tipicamente pesquisador. Utiliza o aço como suporte das suas obras e experimentações. Atua como produtor de eventos artístico-culturais, também como cenógrafo. Recebeu prêmios como escultor e cenógrafo e o reconhecimento público de instituições pela sua colaboração às artes e à cultura. Em Aracaju suas obras podem ser encontradas em espaços públicos, como Museu da Gente Sergipana, Museu Palácio Olímpio Campos, Sociedade Semear, Sindipetro – sindicato dos Petroleiros e Hospital Nestor Piva. Cruz é o autor do monumento aos garis e margaridas, de 5,5m de altura, instalado na Avenida Heráclito Rollemberg, também em Aracaju.
É colaborador de jornais e revistas; organiza seminários e palestras; integra o Fórum Permanente de Artes Visuais como colaborador e outras organizações que lidam com Educação, Meio Ambiente e Cultura, das quais é sócio fundador como a Sociedade Semear. É integrante da Academia de Letras de Aracaju, ocupando a cadeira no 6, que tem como patrono o artista plástico, poeta e escritor Jordão de Oliveira. 

Cartas a um jovem escritor - Tatiane Ferreira

Os jovens brasileiros são sedentos por oportunidades que dificilmente aparecem, principalmente quando estamos falando de algumas regiões do país. Muitos dizem que a juventude é o futuro, que algo deve ser feito por nós, mas sempre, tudo não passa de uma mera discussão de fim de tarde, logo tudo volta ao normal, ou melhor, ao frequente, pois não é nada normal tantas jovens vidas sem direção.
Na literatura, muitos encontram um refúgio, para se expressar, para mostrar que são capazes ou pelo mais simples prazer de escrever. Escrevemos para que nos notem, para que percebam que independente das nossas origens, da nossa cor e de todo trajeto de vida, nessas linhas digitadas, somos todos iguais. Fazemos parte da mesma luta, tentando quebrar as barreiras da desesperança, pois é isso que enfrentamos quando vemos uma marcha de indivíduos desestimuladores.
Quando mais jovem, eu acreditava bem mais na bondade do homem, achava que existiam mais pessoas boas do que ruins, hoje percebo que não, ao contrário. Como se não bastasse as dificuldades do mercado editorial e de estabelecer uma carreira consolidada como escritor (a), ainda é necessário lutar contra as inoportunas opiniões de algumas “almas sebosas”.
Por mais de uma vez, fui convidada a falar com alguns jovens de ensino médio sobre a escrita, e sempre frisei que, devemos aceitar apenas as críticas construtivas. É grande a quantidade de bons escritores em minha cidade, Monte alegre de Sergipe, no entanto, muitos ficam aprisionados pelo medo/ vergonha de expor suas obras, em virtude da maldade alheia.
Meus caros, a verdade é que nos julgam pela coragem que lhes faltam, por isso, sempre digo, coragem! Muitos vão te criticar, poucos vão te apoiar, mas nessa jornada, você é a peça chave, ou melhor, como já dizia Fábio de Melo “E o que vier tu vencerás
Só tu tens a chave: abres ou fecharás?
Tatiane Ferreira

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Sobre a autora: 
Montealegrense, graduanda em nutrição (AGES), integrante do grupo de pesquisa interdisciplinar em saúde (GEPISA), líder na pastoral da criança, instituição de ação social da CNBB, voltada para o acompanhamento e orientação de famílias no que diz respeito a ações básicas de saúde, educação, nutrição e cidadania. Escritora desde o ensino médio, tem textos publicados na seleta do 4° encontro sergipano de escritores, 2° encontro de escritores canindeenses e convidados, 1° e 2° encontro dos escritores montealegrenses, entre outras obras reconhecidas...
E-mail: tatiferreiranutri@gmail.com; Instagram: _tatinutri

Cartas a um jovem escritor - Charles Bukowski

se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.
se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.
se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.
não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.
quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.
não há outra alternativa.
e nunca houve.
Traduzido por: Manuel A. Domingos
Resolvi trazer este poema do velho Buk pra inspirar todos aqueles que estão contribuindo com o projeto Cartas a um jovem escritor. Quer participar? Conheça aqui o projeto. 

Sobre o autor:

Henry Charles Bukowski Jr (nascido Heinrich Karl BukowskiAndernach16 de agosto de 1920 — Los Angeles9 de março de 1994) foi  um poetacontista e romancista estadunidense nascido na Alemanha. Sua obra, de caráter inicialmente obsceno e estilo totalmente coloquial, com descrições de trabalhos braçais, porres e relacionamentos baratos, fascinou gerações que buscavam uma obra com a qual pudessem se identificar.