Dostoiévski e o Subsolo: “Eu estou sozinho, e eles são todos”


                                                                                                       Dostoiévski, por Vasily Perov, 1872


Qualquer tentativa de adentrar na obra dostoievskiana resulta no lugar-comum: não se volta inteiro. Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski (1821-81) foi um dos maiores escritores da literatura russa (e mundial) de todos os tempos. Sua capacidade de penetrar e desnudar o subsolo da alma/psique humana assombra. Reconhecido e aclamado ainda em seu tempo, sua influência se alastra até os dias de hoje. Um detalhe: da literatura ao cinema, da psicologia à filosofia. Em seu tempo, espantou a Friedrich Nietzsche (1844-1900), por exemplo, o qual viu em Dostoiévski um “Grande mestre”.
Exponho aqui algumas notas que fiz acerca de sua novela Memórias do Subsolo. Este livro não foi só um divisor de águas na obra do autor, mas também é tido por a primeira novela de cunho existencialista, influenciando Jean-Paul Sartre (1905-80) e os demais filósofos da corrente filosófica denominada Existencialismo.  E por que essa obra agrada tanto? Nietzsche nos justifica: “De tudo quanto se escreve, só me agrada o que alguém escreveu com seu sangue” (NIETZSCHE, 2012, p. 44). É isso: temos aqui o sangue de Dostoiévski em seu anti-herói que narra essas memórias.
Na primeira parte do livro, o narrador apresenta o subsolo. Não só o lugar onde morava, mas o seu subsolo interior. Um homem amargo, seco, indiferente, doentio... “Um homem mau”. Alguém que ardia no escuro.  Alguém que aprendeu a arder, visto que encontrava prazer na dor. Procurava-a. Desde situações humilhantes a situações que o levasse à cólera, à autopunição. Dentre as questões que aborda, essa se sobressai, e é uma das que trabalha no livro todo: “Não se equivocará a razão no que se refere às vantagens? Porque talvez o homem não ame apenas o bem-estar. Talvez ele ame em igual medida o sofrimento. Talvez o sofrimento seja para ele tão vantajoso quanto o bem-estar” (p. 56).
 Dostoiévski foi epilético, mas, embora as convulsões permeiem a narrativa, a principal doença desse homem era outra: sua consciência. O autor nos assegura que “(...) ter muita consciência é uma doença; uma verdadeira e perfeita doença” (p. 23). Ele, um homem instruído, um “homem de consciência hipertrofiada”, via-se deslocado frente aos “homens imediatos, e de ação” – o “homem normal”. Consciente da condição humana, nos lança uma questão que para mim é a principal do livro: “O que é melhor, uma felicidade barata ou um sofrimento elevado?” (p.167). Na segunda parte, nos revela suas memórias: nosso rato do subsolo em seus passeios sob a neve molhada – a “vida real”. Observamos que não faz isso em busca de “uma felicidade barata”. A única coisa que busca é reconhecimento. Sua inteligência o torna um ser superior, e ele quer que admitam isso.
  Quando um oficial o tira de seu caminho, tratando-o como uma “mosca”, ele adoece. Como uma farda pode atribuir tanto poder a alguém? Maquina durante muito tempo um encontro de ombros entre eles, numa rua movimentada. Não era só uma necessidade de ser visto pelo oficial, mas uma necessidade de se colocar “em pé de igualdade com ele” (p. 81) perante a sociedade. Em outra memória, nos conta quando se ofereceu para jantar com antigos colegas da escola. Detestava todos eles. Fez para se autopunir, e para mostrar a eles quem ele tinha se tornado. Eles poderiam ter o rosto mais bonito, os melhores empregos, até mesmo as mulheres – ainda assim, eram inferiores (por mais que não admitissem). Depois de uma tentativa de humilhar Zverkov, o homenageado do almoço, isolou-se. Tudo aquilo lhe feria: “Oh, se vocês apenas soubessem de que sentimentos e pensamentos sou capaz e como sou evoluído!” (p. 110). O fato de não conseguir demonstrar o quão “evoluído” se tornara era um câncer.
A temática da última memória é basicamente o seio familiar. Para tratar do assunto, surge Liza, uma jovem prostituta. Essa personagem vai ter características bem próximas as do narrador, como se fosse um “Eu” do sexo oposto. E aqui ele mata seu desejo de falar, sua ânsia em se evidenciar como o “evoluído”, o “superior”. Afinal, era um diálogo consigo mesmo. Em seu primeiro encontro, uma jorrada de sentimentalismo e utopias sobre o tema. No segundo, Liza conhece o subsolo de nosso anti-herói. Chega em um momento desconfortável: ele estava numa briga feia com o detestável Apollon, com quem morava. Durante todos os conflitos que se sucedem em meio às lágrimas e convulsões, perceberemos o quanto sua doença o limitava. Não conseguiria se permitir para ela – por mais que a desejasse.
No final, a “consciência superior” zomba. Nos obriga a ver o quão ridícula é a vida – quanto ao convívio social –, o quão somos dependentes das engrenagens, o quão nos incomodamos como nossa própria liberdade... A conclusão que Dostoiévski chega nos dá um nó nas tripas:

No que me diz respeito particularmente, apenas levei até às últimas consequências em minha vida aquilo que vocês não ousaram levar sequer até a metade, e ainda por cima tomaram como sensatez a sua covardia, e se consolaram enganado a si mesmos. Com isso, pode ser que no fim eu esteja mais 'vivo' que vocês
(DOSTOIÉVSKI, 2013, p. 169)

 Tudo somado, o Subsolo é melhor.









Referências bibliográficas:
DOSTOIÉVSKI, Fiódor M. Memórias do Subsolo. Editoria: Hedra, São Paulo, ed. 2013.
NIETZSCHE, Friedrich W. Assim falava Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Editora: La Fonte, São Paulo, ed. 2012.

                                                      




0 comentários: