O Bêbado na igreja

Leonardo Da Vinci
                                                         A Última Ceia (1495-98), por Leonardo Da Vinci (1452-1519)

Vamos, meus irmãos. Vamos de mãos dadas. Ele merece, sabe? Se conheci o homenageado? Demais. Faz um ano que meu fígado tenta se regenerar. Mas é inútil. Eu sei, é inútil tentar.
Entro na igreja. A casa de Deus está lotada. Vou pegando nas mãos de alguns conhecidos que ficam sempre no fundão: é noize! Essas mãos quentes... esses olhares piedosos... são quase o suficiente pra me consternar. O padre ainda não chegou. Eu estou pegando na mão do último conhecido. Da fileira de bancos ao lado, uma voz se dirige a mim:
– Aqui, aqui... Faça favor.
Vou até ele. Está quase tão bêbado quanto nós – que não fedemos a álcool, além de termos tomado banho.
– Opa! Pois não? – Apertando sua mão. Mão dura, suja e honesta. Sento ao lado.
– Você trabalha na igreja, né? – Camisa aberta (de um azul brando), calça social, sapatênis e algumas mãos apertadas. Sim, faz algum sentido a pergunta.
– Não, senhor. – Um riso meio sem jeito. Tá, foi um tanto irônico aquela pergunta. Mas ele me parece um anjo inocente.
– É que vim aqui tomar... tomar... – Cara, aqui tu não vai tomar mais não, haha –  ...um conselho, meu amigo. – Ah, sim... – Olhe, eu não nego que... que... fa... faz... mais de semana que não parei de beber. Todo dia, meu amigo.
– Hum... Entendo... – Caramba! Esse leva muito a sério aquele velho conselho de Baudelaire: “É preciso estar sempre bêbado”.
– Você acha que o padre vai me confessar? – Perdoo o equívoco dele, mas esses olhos em cima da gente eu não perdoo. Deixem o cara falar, povo de Deus. Não estou com vergonha, ora. E parem com esse “Psiiiiu”...
– Acho que você pode sim tentar falar com ele ao final da missa. – Por falar nele, é entoado um canto de abertura, enquanto ele está se dirigindo ao altar.
O ar muda. Como se uma neve invisível (uma centelha do Invisível) caísse do teto, e o cheiro de morcego lembrasse agora outro perfume. O padre toma o microfone. Seus filhos suspiram baixo, em extremo deleite e angústia. Meu novo amigo abaixa a cabeça – com seu boné encardido na mão direita; com seu cabelo revoltado com o suor.
Toda vez que o padre toca no nome do falecido, dá pra ver: é como se uma flecha atingisse o peito de cada um. Vendo mais de perto, percebo: ele tinha quase mil amigos no Facebook, cadê esse povo? Só vejo uns vinte e poucos por aqui. As outras pessoas são amigos da família, ou alguns que precisam de alimento pra sua fé.
– Mas eu quero um conselho seu mesmo, meu amigo...
Perdoem-me por esse recorte que não vou relatar. Resumindo: chegou de viagem e está com problemas com a família. Em meio a tentativas de chamar nossa atenção, dei o que julguei ser o melhor conselho. Ele está calado agora. O povo estava nervosinho com nossa falação. Ele falava alto mesmo. Um bêbado falava mais alto que o padre com o microfone. Ah, entendi o incomodo: um bêbado fala mais alto que um padre com um microfone.
– Eu já vou indo embora, tá certo? – Virou pra mim e estendeu a mão.
– Já? Tá certo. Pense direitinho no que eu disse. – Apertando sua mão.
– Pode deixar. Fique com Deus, meu amiguinho. – Tentando se levantar.
– Certo. Vá com Ele. – Como estamos no último banco, quatro passos bem tortos e ele está fora da igreja.
Ele se foi. Todo mundo volta os olhos ao padre – esse já estava com ciúmes. Meu tio, que está sentado ao meu lado, fala alguma coisa que não entendo bem. Balanço a cabeça. Meu amigo, que está sentado à frente, volta sua cabeça e ri um pouco. Todos de pé pra mais um canto. Tá, eu não fiquei. Eu e mais uns dois próximos (não falo de distância). Uma cantora confunde altura com intensidade. Normal. Fim do canto. Todos sentados. Um batman brinca nos ares.
– Eu voltei, eu voltei. Quando escutei as reza, deu um arrependimento, meu amigo. – Meu amigo ladrão de atenção voltou. Ótimo.
– Muito bem. Sente, sente...
Olhares tortos. Chiados. Ele voltou! Está de cabeça baixa novamente. Precisa de um banho. Olha só, sabe de toda a missa. Responde tudo junto ao coro. Está nitidamente ansioso pra que termine logo. Tenta ficar batendo o pé. O padre é o dono da palavra, o guardião da verdade, da luz.
– Essa igreja é de crente, né? – Entendi sua pergunta.
– É uma igreja católica. – As imagens e os quadros entregam, mas tem o probleminha do álcool.
– E aqui é a casa de Deus?
– Basta você acreditar. – Até eu me surpreendi com a minha resposta agora.
– E não sei bem não, meu amigo. – Não sabe acreditar? Não faz sentido eu perguntar isso.
Ele abaixa a cabeça. Parece que percebeu alguns olhares pra trás e chiados. Quem eles pensam que estão repreendendo? Todos de pé pra mais um canto. Até você? Não caia em cima de mim, cara.
– Eita, tá fedendo mesmo, né? – Cheirando o sovaco.
– Tem problema não, senhor. Pode ficar à vontade. – Ele armou um sorriso, mas desistiu e voltou a cantar. 
E canta assim: “O Senhor é o pastor que me seduz”. Na verdade, a última palavra é “conduz”. Não tem como não rir aqui. Baixinho e discreto, assim estou rindo. E não tem como não contar pra meu amigo. Filho da mãe, quase riu alto. Vai rir disso até cair a língua. Todos sentados novamente. Mal sentou, e já se despediu pela segunda vez.
– Pode ir. Não se esqueça do que eu falei não, viu?
– Vou fazer, vou.. vou fazer, meu amiguinho.
Aperta minha mão... Aperta a de meu tio... Aperta a de meu amigo. E está indo. Eita raios! Quase cai.
O padre e sua ladainha de sempre. Três pessoas na minha frente usam uma camisa branca homenageando o falecido. Dentre algumas frases, uma, a qual me lembro de já ter ouvido da boca dele, se destaca: “Odeio gente pobre (de espírito)”. Não há aquelas mensagens enfadonhas e surradas. O que temos aqui são as frases e expressões favoritas dele. Devo admitir que narrei isso tudo e não disse que por vezes os versos daquela música me vinham à mente: “Stephen may be feeling all alone / Stephen never do this again come back home”. Tentei esconder isso. Não deve ser sinônimo de fraqueza. Sim, pretendo escrever sobre ele, mais tarde. Sem contar nas crianças bagunceiras, que tanto me encantam – que tanto me levam à nostalgia...
O padre deixa agora a entender que o objetivo dessa “missa de um ano” é comprar o descanso eterno por R$150,00. A Igreja sentirá muito quando as pessoas perceberem que esse serviço é 0800.
O ritual da hóstia. Entre as duas fileiras de bancos, formou-se uma fila. Os fiéis em busca de um pedaço do corpo de Cristo. Por que não? Eu preciso sentir isso. É triste: não tem gosto de nada.
Aliedson Lima,
21-02-17

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