Sexo, desvio e danação: O poder da Igreja e as minorias na Idade Média

Jefrey Richards

Sexo, Desvio e Danação traz um estudo do medievalista britânico Jeffrey Richards sobre as minorias na Idade Média. O livro faz uma abordagem da vida de seis grupos minoritários dessa época: hereges, judeus, bruxos, prostitutas, homossexuais e leprosos. A perspectiva do estudo gira em torno de um fator comum a todos os seis grupos – o Sexo. O autor analisa o sexo, no medievo, como um “desviante” (mecanismo diabólico usado para desvirtuar da fé cristã) que leva à “danação” (punição infligida pela Igreja).
Na Idade Média, a Igreja era detentora do poder, e usava do status de “representantes de Deus na terra” para controlar e nortear a vida no medievo. Controlava de coisas simples como, por exemplo, a posição a ser usada por um casal no momento da relação sexual – “posição do missionário” (p.40) – como também as grandes expedições lideradas pelos cavaleiros com “a causa sagrada de libertar a Terra Santa” (p.17), que ficaram conhecidas por “Cruzadas”. A passagem do milênio foi marcante para esse período, pois acreditava-se na segunda vinda de Cristo, trazendo, desse modo, o fim do mundo. A ideia de apocalipse era um arquétipo do medievo, usado e disseminado pela Igreja. Com a possibilidade da segunda vinda de Cristo, as pessoas sentiram necessidade de uma volta à moralidade fundamentalista cristã. Cristo não veio nem em 1000 – um milênio após seu nascimento, como esperavam uns; nem em 1033 – um milênio após sua morte, como esperavam outros. Mas, mesmo assim, o fato corroborou com o início de grandes mudanças na vida medieval. A própria Igreja se reformou no início do século XII. E aqui Richards enfatiza:

“Mas teve duas consequências sérias. Concentrou a atenção na vida irregular de boa parte do clero e na inadequação do sistema, e transformou o papado numa instituição monárquica organizada, burocrática e legalista, com o clero transformando-se numa casta fechada e exclusiva.”
(RICHARDS, 1993 p.53)



  Entre as mudanças da sociedade, haviam agora, por parte de alguns, “o desejo de se igualar a Cristo no sofrimento e na espiritualidade” (p.54). Nessa altura, a Bíblia, que até então estava ao alcance apenas do clero letrado, começou a ser traduzida do latim para o vernáculo, onde pregadores autodidatas espalhavam sua mensagem, pondo Cristo ao alcance de todos. A atmosfera já era de “puritanismo, fundamentalismo e evangelismo”, e a Igreja sentiu o peso desse início de transformação cultural.
O que era heresia na Idade Média? A Igreja julgava por heresia toda ação que estivesse em desacordo com os dogmas impostos por ela. Heresia não era dizer um “não” aos ensinamentos de Cristo, era dizer um “não” aos dogmas da Igreja. Ela sente que começa a perder poder quando o homem medieval se questionou sobre necessidade do clero como intermediário para se chegar a Deus. Havia agora esse “espírito evangelista”, e, quando somado a desaprovação da conduta clerical, dará origem a muitas seitas – a muitos hereges. Richards lista alguns dos dissidentes mais significantes do período: cátaros, albigenses, valdenses, beguinas(os), hussitas, flagelantes, bogomilos, etc. Geralmente, tudo começava com um líder carismático, que observa as ações de um clero hierarquizado e com uma conduta distante da de Cristo, e sente no sangue reformista a necessidade de volta às origens. Tinham em comum também a forma que a Igreja as olhava. Primeiro, a Igreja se via como “representantes de Cristo na terra”, quem era contra a Igreja era contra Cristo, logo estava a serviço do Diabo. Neste contexto cabe a palavra Sexo. A Igreja vendia a propaganda de que no ato de pactuar com o Diabo, envolvia sempre orgias sexuais com o próprio, mesmo que metamorfoseado em um “gato preto” (p.70). A satanização abria a defesa da Igreja quanto as seitas. Em seguida, vinha a pregação e a tentativa da conversão. O último passo era o extermínio: seja pelo fogo, seja pela lâmina, os reformistas que buscavam estar mais perto das ações de Cristo pereciam, em favor dos tais “representantes de Deus na terra.”
Outro grupo estudado, e que verificou-se ser o mais satanizado de todos, foram os Bruxos. Numa época em que o antagonismo entre “Forças do Bem” e “Forças do mal” era tão definido e aceito, a ideia de bruxaria fazia parte da vida medieval. Era preciso que houvesse os bruxos, sendo a maioria eram mulheres, para justificar “as catástrofes naturais súbitas (fome, epidemias, tempestades, enchentes, destruição de safras e animais) quanto para problemas familiares, tais como impotência, infertilidade” (p.82). Faz-se necessário também sua característica produção comercial: “unguentos, porções, filtros, sortilégios, amuletos e imagens de cera” (p.82). Na verdade, aquele que não aceitava a ideia de “Bruxos” já se caracterizava como herege.   Como todo pactário com o Diabo, os bruxos também usufruíram de orgias sexuais, e com direito a um ritual bem característico: “O equivalente do batismo cristão para os bruxos era a copulação com o Diabo” (p.83). Já era de se esperar que esses “inimigos de Deus” sempre foram caçados e aniquilados. Sobre esse grupo o Richards conclui:

“podemos aceitar a existência de história populares sobre bruxas noturnas e espíritos femininos benéficos, mas elas nada têm a ver com adoração do Diabo. Podemos aceitar a existência de bruxas, mas como mulheres isoladas, não em seitas e não adoradoras do Diabo.”
(RICHARDS, 1993 p.94)



Por muitas razões os judeus nunca foram vistos com bons olhos pelos cristãos: concorrência direta por fiéis, separação, usura judaica, e “o que é muito sério, os judeus passaram a ser vistos como responsáveis pela morte de Cristo” (p.95). O conceito de “Anticristo”, agente especial do Diabo, nasceria diretamente dos judeus. Acreditava-se numa paródia da história do Nazareno. O Diabo iria à Galileia, engravidaria uma prostituta judia, e dela nasceria o Anticristo – aquele que desvirtuaria o povo de Deus.  A imagem do judeu piorou bastante quando, por volta do ano 1010, o Santo Sepulcro foi destruído pelos sarracenos, sob a suposta influencia dos judeus. Já havia o desejo cristão de “vingar a morte de Cristo” (p.98), esse episódio do Santo Sepulcro foi o estopim para uma onda de massacres. A Igreja ofertavam-lhes duas opções: a conversão ou a morte. Muitos cometiam suicídio, ou, de qualquer modo, eram massacrados. Sob a influencia de um pensamento de santo Agostinho, que via um papel para os judeus no “plano divino da salvação humana” (p.99), houve proteção por parte de alguns para esse grupo. Mas tinha seu preço. Os judeus eram conhecidos por suas atividades comerciais, administrativas, e, enfim, por sua riqueza. O rei que saia em defesa cobrava sempre um preço alto por sua proteção. O Concílio Lateranense de 1215, um marco na Idade Média, estabeleceu muitas mudanças. Uma deles foi para que os judeus usassem uma roupa diferente da dos cristãos: era a “marca da infâmia.” “Na França, na Espanha e na Itália a marca do judeu deveria ser um circulo costurado sobre as roupas (a rouelle)” (p.114).



“Em muitos lugares, a aiguillette, uma corda com nós pendentes no ombro e de cor diferente da do vestido, era a marca da infâmia.” (p.124) Essa era a marca de infâmia das prostitutas, que segundo santo Agostinho, eram “um mal necessário.” Richards transcreve as palavras de Agostinho: “Se as prostitutas forem expulsas da sociedade, tudo estará desorganizado em função dos desejos” (p.123).
A Pequena Era Glacial (1250-1300), período de escassez de alimentos em que “num ano bom, as pessoas conseguiam apenas sobreviver” (p.26), precedida pela “Peste Negra (1347-9)” – pandemia que de devastou um terço da Europa e que se tornou cíclica a cada 5/10 anos (p.25), proporcionaram a Idade Média um teor sombrio, de “Trevas”. Tantas eram as calamidades e os sofrimentos, que dessa vez não havia dúvidas quanto ao fim do mundo. Essa situação de tensão e incerteza colocavam as pessoas em uma dicotomia de como levarem suas vidas. Poderia ser escolhido reservar os seus últimos dias pra Deus, ajudando os muitos precisados, ou poderia se entregar a devassidão e aproveitar da forma mais dionisíaca possível o resto de sua vida. “Comer, beber e divertir-se, pois amanhã estaremos mortos.” (p.26). Aqui, a necessidade do sexo é inquestionável. Tanto pela urgência de reestabelecer o número de habitantes, quanto pela simples satisfação da carne. As prostitutas em muito serviram, exatamente pelo argumento exposto por Agostinho, que apesar de ver o desejo sexual como “Pecado Original” (p.34), sabia da necessidade de se controlar do o impulso sexual da sociedade, pelo equilíbrio da mesma. “Colher uma rosa” (p.121) – transar com uma prostituta – fazia parte da cultura da juventude medieval. A própria Igreja via algo de benéfico nesse fato: antes com prostitutas que entre si. Como um mal que vem para um bem.



A homossexualidade existiu desde sempre. Mesmo que com outra terminologia, ou com o contexto social lhe dando outra cifragem (como na Grécia Antiga, por exemplo), mas ela sempre existiu. Na Idade Média ela é tida por um problema, um sério problema que atinge diretamente a moralidade pública. “Antinatural”, assim que era vista a atitude do sodomita (gay). O sexo tinha sido dado ao homem com a finalidade única de procriação. Mesmo no próprio casamento, se usufruído fora dessa prescrição, caracterizava-se pecado da carne – fornicação. A Sodomia existia na sociedade medieval, e era um problema a ser resolvido – seja pelo auxílio das prostitutas, seja por pregadores cristãos. O pregador franciscano Bernardino de Siena, afirmava que Florença “era pior do que Sodoma e Gomorra” (p.149). Esse pecado atingia proporções que nem o próprio clero dele escapou. Sobre esse “impulso demoníaco” (p.143), o cronista Fra Salimbene, também santa Catarina de Siena e Benvenuto de Imola, “afirmaram que o pecado era comum entre os clérigos e os eruditos” (p.141). Bem típico da hipocrisia da Igreja, que condenava a “usura do judeus”, mas ambicionava sua riqueza (p.117); condenava a imoralidade das prostitutas, mas é sabido hoje que “o clero constituía 20% da clientela das casas de banho e bordéis privados de Dijon” (p.123); queimava os hereges numa fogueira por não obedecerem os ensinamentos de Cristo (p.65), sendo que Cristo jamais condenaria alguém à fogueira. Quem eram os hereges? O último grupo estudado: os leprosos.


A heresia do leproso estava na forma como ele contraiu a doença: acreditava-se na lepra como “uma punição por falha moral e particularmente por pecado sexual” (p.162) além de ser “transmitida sexualmente” (p.31). Mas, esse grupo foi menos infortunado pela igreja que os demais. Pelo contrário, os clérigos viam nos leprosos uma chance de demonstrar santidade, aguçando seu lado de “Bom samaritano”. Os leprosos já eram atormentados pela doença, a Igreja apenas usava de sua dor. Havia um consolo: “Nosso Senhor dá-te um grande presente quando te pune pelo mal que fizeste nesse mundo” (p.160), em seguida a autopromoção: “Uma das marcas particulares de santidade que a Igreja reconhecia era o amor pelos leprosos e a assistência a eles” (p.160). Sua punição era a exclusão da sociedade. Havia até uma cerimônia consolidando a exclusão em que “o padre espalhava três pás cheias de terra, ou a seus pés, ou sobre sua cabeça, declarando: ‘Sede morto para o mundo, mas vivo novamente diante de Deus’” (p.158) Daí recebia seu “guiso, sino ou trompa” (p.158) como marca da infâmia e se recolhia. 

RICHARDS, Jeffrey. Sexo, Desvio e Danação: as minorias na Idade Média. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, ed. 1993.

5 comentários :

  1. Gostei muito... Cada dia mais eu tenho assuntos para debater com esse 'povo.' kkkk. Parabéns!!!

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    1. Debater é sempre bom. Obrigado pela vista, Márcio.

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  2. A igreja como sempre foi: hipócrita, oportunista e cruel.

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