Do lugar onde me criei

Aliedson Lima, na caatinga
Foto: Arquivo pessoal, Aliedson Lima na Caatinga

Assim se referiu a mim certo escritor: “Um filhinho de papai”. Mais picareta do que desinformado. Mais covarde do que preguiçoso. Ele sabe que com poucos cliques teria um esboço de minhas origens. Eu o entendo: denegrir é mais fácil. Encontrar o lúdico no polêmico – quem nunca? Covarde! Imbecilóide! Agora, falando quase sério, foi bom ter ouvido isso.  É uma daquelas frases que te obriga a olhar a palma da mão. E seus passos estão ali.
Andando pelas ruas do Cuiabá – não a capital do Mato Grosso, mas sim um povoado de Canindé de São Francisco, em Sergipe – repensei meus passos. Queria escrever uma ou outra coisa sobre eles. Vi que o necessário era falar sobre as ruas, sustentadoras de todos os passos. Daí resolvi escrever sobre o lugar onde me criei. Não pra justificar nada. Apenas quero me livrar do que pensei da forma mais digna que conheço.
Moro em um lugar pequeno. Vinte e um anos atrás, parte da fazenda Cuiabá foi comprada pelo governo e dividida entre duzentas famílias. Hoje, o povoado abriga de quatro à cinco mil habitantes. Desde 1996 estamos aprendendo a nos suportar. Aqui todo mundo se conhece. Basta ver a pessoa de longe e já sabemos se vamos cuspir no chão quando ela passar. Ao centro do povoado, no local onde um dia pode vir a ser uma praça, fica a igreja católica. Fica de frente pra quadra de esporte e ao lado dos bares esportivos. Isso mesmo: bares, no plural. Só ao lado da igreja, temos cinco bares. Sempre disputam qual é o som mais alto. Sempre falam mais alto do que o padre. É claro, por falarem mais alto, eles têm o maior rebanho.
Foto: Arquivo pessoal, As "Pias"

Aliás, é praticamente tudo o que apreciamos: améns, futebol e cachaça. Améns aos padres, pastores, bêbados e à família de seu coroné. Do morro, vemos todo o povoado. Lá fica a caixa d’água. Em determinada época do ano, ela é boa pra tomar banho, visto que derrama milhares de litros de água tratada por dia. Mas é um lugar que só vamos quando não tem gente se brisando. Do morro também vemos a vasta caatinga. É, pra mim, a maior vantagem de morar neste lugar. A possibilidade do exílio. A fuga. Quando assim penso, só me vem as “Pias” à mente. Esse lajeiro recebe tal nome porque, antes da água encanada, as lavadeiras usavam a água que ele acumula. Hoje, sinto que ele só é usado por mim. Lá cresceram ideias caras ao que já produzi. Posso até chama-lo de meu jardim de cactos.
Os cactos representam a força da caatinga. A resistência de terras por onde um dia passou Lampião. Aliás, morreu a uns vinte quilômetros daqui. Paz ao Capitão. Paz mesmo encontramos na Sede – ruinas do casarão onde morava o dono da fazenda. Dizem que lá é mal-assombrado. Já pude constatar que a única assombração de lá é o céu estrelado.

Foto: Arquivo pessoal, Ruínas da Sede

No mais, a caatinga, o mato... Poucas coisas nesta vida pagam uma bela cagada no mato. Mas não se enganem, somos civilizados: ao lado do povoado tempos nosso próprio lixão. As crianças daqui também já nascem com fones de ouvido e contas na Netflix.
Nada demais tem meu lugar. Nem de menos. Um dia aqui também tem vinte e quatro horas.
De manhazinha, o barulho de carros, motos e carroças se dirigindo aos terrenos, entram em contraste com os latidos dos cobradores de pedágio. O bocejo dos remelentos indo à escola. Hora do pão no mercado, da fila no posto médico, do cheiro de cuscuz e café. Ao meio-dia, ardemos ao som das notícias locais. À noite, como já ficou claro, é pros améns.  Quando a noite vai crescendo, torna-se dos cachorros enluarados. Quando ela já está bem velha, torna-se do escritor do povoado, que termina mais um texto sem saber pra quê.




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