Antônio da Cruz, o artista e seu ofício [ENTREVISTA]


Percussão sobre o aço, na construção da obra
“Contra todas as forças que nos oprimem". Por Márcio Garcez.

    A primeira vez que dividi o mesmo espaço que Antônio da Cruz foi na quarta edição do Encontro de Escritores Canindeenses. Mas naquele dia não conheci ninguém. Meus nervos dançavam: além de ser o dia da publicação de meu primeiro livro, incumbiram-me de palestrar sobre algo em que não me via preparado, até então.
   Ainda no mesmo ano, 2017, conheci o Cruz no Encontro Santanense – já em terras alagoanas. Devido à dinâmica do evento, trocamos poucas palavras. Naquele dia voltei para casa com seu livro Crônicas do ateliê na mochila. Depois da leitura deste e do deleite com as fotografias de Nailson Moura, soube que tinha apertado a mão de um artista que gravará seu nome no metal da história da arte sergipana.
    Na entrevista que segue, Cruz parte de sua própria trajetória artística para nos revelar um olhar arguto sobre temas importantes que dizem respeito ao ofício do artista, tais como: o fazer artístico, a sobrevivência do artista no século XXI, as leis e programas de incentivo à arte e cultura, a crítica, a arte – conceito, gozo, porvir, etc.  

Aliedson LimaQuando você ouve ou ler o nome “Antônio da Cruz”, de quem você lembra? Quem é Antônio da Cruz?
Antônio da Cruz – Um sujeito que percorreu 61 anos de estrada, vivendo algumas experiências interessantes e que, mesmo com tal idade, tem sonhos a realizar.  O indivíduo que desde criança levou em consideração a possibilidade de ser artista, mesmo sabendo ser difícil, observando a biografia de grandes nomes da arte universal e os exemplos bem próximos.

A. L.Fruto do projeto “Brotando das mãos”, o livro Crônicas do ateliê (2014) traz uma belíssima homenagem a você, marcando seus quarenta anos de carreira. Nele Nailson Moura fotografa Antônio da Cruz. Conte-nos um pouco mais sobre esta experiência.
A. C. – Nailson estava tocando o projeto Brotando das Mãos, quando me encontrou numa mobilização social e falou da necessidade de ter entre os seus fotografados, alguém que lidasse com metal. O projeto tem como tema pessoas que manuseiam os materiais para produzir utensílios domésticos, instrumentos musicais, canoas, enfim.... O importante é que não seja produção em escala industrial. Eu topei e ao longo de três meses, duas vezes por semana, ele me acompanhou na labuta do ateliê. Foi bom, porque unimos o projeto dele com a minha vontade de comemorar meus 40 anos de atividade. No livro temos três narrativas: uma imagética, as fotos de Nailson; a segunda é formada pelas legendas das fotos, que descrevem sinteticamente o que faço; e a terceira pelos treze artigos que selecionei, dentre aqueles que se aproximam mais do gênero crônica, dos vários produzidos por mim, enquanto colaborador de jornais durante um bom período.

A. L. Sua carreira artística começa em 1974, com a pintura. Em 1989, passa a domar o aço, quando deixa os pincéis de lado. Permeando esses processos, a escrita. Cruz, em qual dessas situações você encontrou maior facilidade e satisfação em materializar seus anseios artísticos?
A. C. – Desde os primeiros contatos com os livros e revistas percebi que, tanto no manejo dos materiais, quanto na escrita eu poderia, inicialmente, aprender e no futuro me sentir realizando algo significativo que viesse a contribuir para a sociedade. Sem dúvida, as artes visuais chegaram primeiro com muita intensidade e, ao longo do tempo, fui encarando como desafio cada trabalho surgido e nova técnica que experimentava. Cada desafio é uma experiência e uma emoção que nem sempre o resultado é satisfatório, a não ser por ter aprendido com a dificuldade encontrada. A escrita veio com o amadurecimento e a militância social. Em 1987 junto a outros poetas lançamos “Dimensões”, com alguns poemas engajados. Escrevi muitos artigos para boletins do movimento social, assim como tenho ao longo desta trajetória colaborado com jornais e revistas, o que é um bom exercício e que dá satisfação. Não há dúvida que a escrita me completa sob certo aspecto. Ela dá sentido prazeroso por me inserir em um rol de pessoas cujo uso da palavra é fundamental. Dominar a palavra é engendrar e apreender conhecimento.  Agora, evidentemente, as artes visuais me deram maior lastro e o meu trabalho ganhou maior visibilidade. Consequentemente, os resultados nesta área têm sido bem mais satisfatórios.  

A. L.Pensemos na seguinte situação: um visitante de um museu esquece seus óculos numa determinada sala e, em pouco tempo, o objeto vira a atração, a obra mais curiosa e a mais selfieada do museu. Ainda sabemos o que é arte, Cruz? O que você entende por arte?
A. C. – Se “o tempo é líquido”, a verdade é volátil, neste mundo de mudanças bruscas. A “desmaterialização da arte” já foi tema da Bienal de Arte de São Paulo e provocou bastante polêmica. Bem antes disto, os dadaístas no início do século XX quebraram os conceitos estéticos e a estruturação racional da arte. Hoje se valoriza mais a ideia-prima à obra-prima. Sendo a poesia ação, a arte na sua poética se presta a provocar inquietações deste tipo. Sim, os óculos poderiam ser, conceitualmente, uma obra de arte, assim como o bidé de Marchel Duchamp se caracterizou como arte. Entra aí não apenas a forma, a cor, o desenho, mas o contexto para validar o conceito de obra de arte. Acredito que, com a arte contemporânea se elasteceu exatamente isto, o conceito do que seja arte. Não somente a matéria física, o quadro pintado, a escultura advinda de uma habilidade no manejo do pincel e do formão, no amalgamento dos materiais, mas, também, da intenção estética, a insinuação prosaica de nos fazer refletir, de nos tirar da mera contemplação. Isto sem invalidar o que já temos consagrado como arte. Não se pode dizer, por exemplo, que os classicistas e modernistas não valem mais, mas sim, que eles tiveram os seus respectivos tempos. Nesta elasticidade do termo, posso dizer que:  - mesmo não sendo novidade – arte é tudo que possa validar o espírito criativo humano com graduações de complexidade.

A. L.Em uma das crônicas que acompanham as fotografias do livro, você nos fala sobre o embate entre o artista e o crítico. Trazendo a coisa pra si, como você lida com a crítica?

A. C. – A crítica é fundamental para o amadurecimento do artista e, por consequência, do trabalho. Gostaria que tivéssemos, em Sergipe, efetivamente pessoas que se prestassem a exercitar a crítica rotineiramente. Temos os artigos casuais de um Rian Santos, no Jornal do Dia; da Suyene Correia que fazia a coluna cultural do Jornal da Cidade, Bangalô Cult.  Há muitos textos em blogs espalhados pelo mundo infinito da internet, que não se constituem críticas, mas recortes biográficos. Os textos de apresentação de exposições e catálogos estão mais perto de resenhas, não propriamente da crítica. A melhor forma de lidar com a crítica é estar consciente de que, sem ela a gente acha que já fez tudo do bom e do melhor, o que é muito enganador. Em tendo de lidar com ela analisarei sempre como um recado para não deixar cair a qualidade do meu trabalho.

 

A. L.É de seu punho a frase: “Querer ser artista ainda é correr todos os riscos de enveredar pela marginalidade social.” Após quarenta e quatro anos de produção, você ainda vê sua obra como marginalizada?
A. C. – Por não se caracterizar como objetos utilitários, as obras de arte não são normalmente “consumidas” como os demais. Ao artista cabe um esforço hercúleo viver dela, pagar as contas e ter o retorno para reinvestir. O retorno é sempre penoso. Para não cair na armadilha de jogar todo o peso na produção autoral e degringolar, o artista se vira: ministra aula; faz artesanato; trabalha como designer publicitário; se tem conhecimento na área industrial se emprega, também vai desenhar; atua como produtor, enfim... “se vira nos trinta”. Isto, além de enfrentar resistência, muitas vezes, na própria família, pois ela quer o retorno financeiro imediato, vitalício e hereditário. E isto tudo é muito diferente de praticar arte por diletantismo. Noutro aspecto, é interessante observar que, quanto mais a obra é autoral, maior é a dificuldade de aceitação por parte do público conservador. Falo daquela na qual todas as peculiaridades fazem a diferença da obra de um artista para outro e esta obra não se encaixa nos parâmetros tipo: lugar-comum.  Isto é diferente da encomenda, onde o cliente diz o que quer e como quer.  Tenho obras interativas que demoraram quase 20 anos para serem adquiridas. Diante deste quadro, é na militância simbiótica profissional/cultural que artistas se mantêm com garra fazendo arte. Nos nossos tempos artistas não podem esperar mecenas aparecerem nas esquinas para os salvarem, do contrário se tornam ignorados com suas obras.

A. L.Para dar um tiro na vaidade dos poetas que nunca se questionaram o que é poesia: “O esforço é, a partir do aço, fazer poesia.” Você consegue imaginar sua vida sem essa labuta diária, essa busca incessante pela poesia que encontra nas artes plásticas?
A. C. – Sim, só imagino substituir tal labuta pela escrita. Mas, o desafio do aço é muito grande e prazeroso ao término do trabalho. Poucos se habilitam a tal labuta. As ferramentas que disponho são poucas. Mesmo lidando com as mãos, martelos e algumas ferramentas rotativas, de modelagem e de corte, muito do processo tem na imaginação o atributo mais importante. Ao criar um desenho, em função do desafio deste desenho preciso perseguir a tridimensionalidade. Desenvolver métodos e encontrar um recurso particular para cada caso ser resolvido é parte do cotidiano nesta atividade. Costumo dizer que a metáfora é a materialização do impossível. Fazer poesia visual para mim é dar tridimensionalidade, cor, textura e movimento ao etéreo, ao antes inexistente e a esta criação dar um título que suscite ter vindo de atividades físicas, cerebrais e emocionais. A minha primeira exposição individual com esculturas foi “Atos de Criar”, no SESC Aracaju, em 1997. Os títulos das obras sugerem ação, como: “Indignação”, “Impulso”, “Desfragmentação”. O gostoso está em olhar a peça acabada e duvidar que fui eu mesmo que a fiz com tão parcos meios. A conclusão da obra na sua dimensão poética está no olhar do espectador, daquele que irá se deliciar, fruir esteticamente; refletir diante dela.

A. L.Assim você finaliza um texto: “Dada à inventividade exigida do artista contemporâneo, ele não se prenderá aos conceitos tradicionais de estilo, técnica ou tema. Ficando ao seu livre-arbítrio não mais a busca da obra-prima, mas a ideia-prima.” Gostaria que explanasse sobre o tema.
A. C. – É uma referência à linha do tempo da história da arte. Se os homens das cavernas praticavam a arte como parte de um ritual sagrado, fosse por agradecimento à mãe natureza ou porque pensavam que, por pintar um animal, logo o aprisionariam magicamente, ao longo da história os antigos prosseguiram justificando o fazer artístico atrelando à superstição e à celebração das vitórias massacrantes dos generais, imperadores e nobres. Com o movimento modernista começou a dessacralização da arte, e a remoção dela do posicionamento do pedestal nobiliárquico. Com a contemporaneidade fica evidente que a arte é feita por humanos para todos os humanos, e não para uma elite social, religiosa ou política.  As ideias por si passaram a ser valorizadas como uma crônica, diariamente, instantaneamente, mesmo que sejam bem prosaicas, sutis, aparentemente desimportantes. Dá-se a valorização da arte do cotidiano, não importa se complexa ou singela, mas bem próxima às pessoas comuns. Às vezes vejo nos muros grafitadas   ideias geniais que poderiam estar numa grande galeria, mas estão ali, acessíveis ao público. Alguém que pintou um rosto no muro logo abaixo de uma árvore. A ideia de sugerir harmonia entre o ser humano e a natureza é muito importante nos dias de hoje. Para a arte, criar situações plásticas/visuais será sempre muito mais importante do que imitar a natureza simplesmente.

A. L.As leis e projetos que incentivam à produção artística no Brasil são suficientes?
A. C. – Complexos e desestimulantes são os dispositivos oficiais de incentivo à cultura. Os nossos artistas não estão habituados a lidar com a burocracia e precisam das figuras do produtor, do elaborador de projetos, do captador de recursos, no caso da Lei Rouanet, que visa mais atender o mercado, ou seja, àqueles artistas que alcançaram o estrelato. Melhora é quando saem os editais específicos para cada área, bancando o projeto pelos fundos de cultura estaduais e municipais.  A seleção dos trabalhos concorrentes, no entanto, estreita oportunidades. Muita gente boa fica de fora dos benefícios proporcionados por esses dispositivos. Espera-se que, com a implantação do Sistema Nacional de Cultura melhore. Difícil é alguém convencer os gestores que o sistema deva ser implantado. Para eles é muita obrigação administrar o sistema e garantir democraticamente que o maior número de pessoas tenha acesso, tanto à produção quanto à fruição da arte e da cultura. Mesmo sabendo que entra dinheiro no caixa. O Sistema Nacional de Cultura, além visar democratizar, possibilita acabar com o clientelismo. Como é verba carimbada, os prefeitos não podem remanejar. Isto não é vantagem para eles. O atual governo federal está carreando dinheiro da cultura para a segurança. Enquanto nos países ditos civilizados aumentam as verbas de educação e cultura, para diminuir a violência, no Brasil, com a cultura das medidas corretivas, despreza-se a prevenção, que é dar ocupação, conhecimento e lazer aos jovens.

A. L.Quem o acompanha nas redes sociais sabe sobre seu engajamento político. É possível dissociar o cidadão engajado do artista engajado? Faz-se necessário ao criador engajar sua criação?
A. C. – Sim, o artista pode muito bem separar a arte do engajamento político. As minhas concepções, no entanto, têm como elemento principal o ser humano. Posso engendrar tanto uma abstração, quanto uma metáfora visual bem figurativa, ambos de cunho social ou não. Não há dúvida que os temas sociais estão muito presentes na minha obra, porque quem me conhece, já de pronto, convida-me para tratar de questões prementes da luta social. Fiz charges por um longo período de militância. Obras, como a da fachada do Sindipetro e a homenagem aos garis e às margaridas têm caráter social explícito. Mas também podem ser encontradas no meu portfólio figuras aladas, metamórficas que nada têm de engajamento, pois são fantasias, metáforas visuais feitas para suscitar espanto e inquietação estética. O cidadão engajado e o artista engajado convivem em mim, porém, sei que me tornaria muito desagradável se não soubesse identificar os momentos adequados para falar de política.
Detalhe do livro "Crônicas do ateliê". Na imagem em detalhe,  Cruz aparece
fotografando sua obra que homenageia às Margaridas e os Garis. Por Nailson Moura.
A. L.Antônio da Cruz também é escritor. Nas Crônicas do ateliê, disserta sobre assuntos complexos de forma sutil, mas sem perder a eloquência. Há projetos futuros para a escrita? Vem livro novo por aí?
A. C. – Sim, projeto é o que não falta. Faltam mesmo os recursos. Dentre os projetos, tenho um de transformar em livros as minhas experiências técnicas e estéticas com o aço. Posso fazer isto a partir de dois artigos acadêmicos já publicados no âmbito da Universidade Federal de Sergipe. Um dos artigos produzidos por mim, a convite do Grupo de Pesquisadores de História da Arte, e o outro pela professora e pesquisadora Fernanda Kolming. Eu trabalho com dois recursos que são o Banco de Ideias e as Notas de Oficina. São anotações feitas na oficina passíveis de conversão em pequenos volumes.  Tenho também o projeto de uma série de livros com poemas de fases distintas, além de outro de contos. Quando serão realizados não sei. A empreitada está por começar.

A. L. Há alguma pergunta que você gostaria de responder e não foi feita? Sinta-se à vontade para fazê-la e respondê-la. 
A. C. – Ih! Aí a entrevista não acabaria Rsrsrs.
A. L. Aqui deixo os meus sinceros agradecimentos, desejando-lhe todo o sucesso possível. 
A. C. – Eu que agradeço pela oportunidade. Obrigado. Sucesso para você também.

Sobre o autor:

Antônio da Cruz, por Nailson Moura
Antônio da Cruz, ativista cultural, é sergipano de Maruim, mora e trabalha em Aracaju.
Cruz é ilustrador, chargista, desenhista técnico, pintor em várias técnicas e escultor. É um artista tipicamente pesquisador. Utiliza o aço como suporte das suas obras e experimentações. Atua como produtor de eventos artístico-culturais, também como cenógrafo. Recebeu prêmios como escultor e cenógrafo e o reconhecimento público de instituições pela sua colaboração às artes e à cultura. Em Aracaju suas obras podem ser encontradas em espaços públicos, como Museu da Gente Sergipana, Museu Palácio Olímpio Campos, Sociedade Semear, Sindipetro – sindicato dos Petroleiros e Hospital Nestor Piva. Cruz é o autor do monumento aos garis e margaridas, de 5,5m de altura, instalado na Avenida Heráclito Rollemberg, também em Aracaju.
É colaborador de jornais e revistas; organiza seminários e palestras; integra o Fórum Permanente de Artes Visuais como colaborador e outras organizações que lidam com Educação, Meio Ambiente e Cultura, das quais é sócio fundador como a Sociedade Semear. É integrante da Academia de Letras de Aracaju, ocupando a cadeira no 6, que tem como patrono o artista plástico, poeta e escritor Jordão de Oliveira. 

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