Cartas a um jovem escritor - Ricardo Santos


     A primeira coisa que me veio à cabeça, quando li o(s) objetivo(s) do projeto “Cartas a um jovem escritor”, foi a minha relação com a literatura. Talvez a discussão que farei agora não contemple de forma satisfatória a proposição feita, mas creio ser interessante ensaiar algo dessa minha relação – especificamente sobre minha escrita literária –, de modo a poder refletir sobre o lugar em que atualmente me situo. Ou, talvez, sobre o lugar em que não me situo. Trata-se de uma problemática que talvez já tenha sido resolvida pelo fato de que, hoje em dia, já não consigo me reconhecer como escritor (se algum dia me reconheci como tal).
     Comecei a escrever cedo, aos 12 anos de idade; e hoje, aos 22, percebo como essa relação se deu numa intensidade que decresceu com o passar do tempo. Lembro de escrever muito, sem nenhuma preocupação além de, todos os dias, deparar com os cadernos e as folhas em branco... versos de provas ou de outros trabalhos da escola nos quais eu traçava linhas a grafite com uma régua. Eu tinha o hábito de contar quantas linhas eu escrevia. Eram centenas... milhares!
    Primeiro escrevi muita prosa. Histórias de fantasia, muitas... cheias de um distanciamento da realidade que até hoje, de certa forma, não me abandonou. Tudo que escrevo é um pouco sonhador e busca a criação de um mundo melhor, de uma vida melhor. Quem nunca escreveu sobre a vida que queria viver?! Então...
     Escrevi histórias de fantasia, depois passei a escrever poesia, veja bem!, sem nunca ter lido poesia, sem nem ao menos gostar de poesia. (Alguém deve saber a razão de não se gostar de algo que nem se conhece...) Sei apenas que escrevi. E dos (se é que podem ser nomeados assim) romances que tentei escrever até hoje, consegui concluir apenas o primeiro, que na verdade era uma história boba sobre uma casa mal-assombrada e um portal que dava passagem para um outro mundo.
     Os outros romances que tentei escrever nunca encontraram um fim. São filhos que nunca puderam nascer – “morreram” antes disso. A verdade é que nem chegaram a viver realmente. O primeiro deles se trata de uma longa jornada, empreendida pelas personagens também num mundo paralelo e fantasioso, cheio das mais mirabolantes criaturas. E é uma longa jornada (para sempre inacabada) também no sentido de sua extensão e, provavelmente, do tempo que investi (d)escrevendo-a ao longo de quase quatrocentas páginas e cerca de cinquenta capítulos. Faltou muito pouco, pouco mesmo, para eu conseguir concluir tal jornada com minhas personagens – pobrezinhas!... tão aleatoriamente construídas, mas que desejo de coração que tenham ganhado uma existência própria, fora de mim, naquele mundo que (não sei por que motivos realmente) abandonei.
     O segundo romance, também inacabado, era o primeiro do que seria uma promissora série de cinco livros (risos). Cheguei, também, muito perto dos capítulos finais dessa história; mas, da mesma forma, alguma coisa não muito objetiva me fez parar no meio do caminho e seguir por outras direções. Talvez tenham sido novos projetos. Não tenho a melhor memória do mundo (e com isso não quero admitir que tenho a pior (risos)), mas lembro-me que, antes mesmo de concluir algum livro, as ideias de um outro, ou mais de um, me tomavam completamente, quase sempre de súbito, fazendo desfilar em minha frente toda uma trama que parecia genial, a melhor história, a mais bonita... E quase sempre o mesmo “final” acontecia: eu começava a escrever essas histórias com o ânimo excitado, mas, já perto do fim, acabava me arrastando, e o fantasma daquele motivo não objetivo me fazia abandonar tal obra, até mesmo sem perceber que o fazia.
     Mesmo hoje, na verdade, não percebo que abandonei tantos projetos. Sempre tive a certeza de que todos eles me perseguiriam como fantasmas de ideias fixas. Não perseguem. Não hoje. Tenho me conformado a cada dia com o meu distanciamento da escrita. Eu me obrigava a sofrer e lamentar por isso, manifestar um luto por mim mesmo, um luto que começou, justamente, nos livros que eu escrevia, mais especificamente com Penumbra – uma história do (des)conhecido, romance que iniciei com as mais altas expectativas e ao qual, por anos, busquei dar o sopro da vida. Mas ele murchou com o tempo, e esse emurchecimento se devia à dificuldade que eu tinha de continuar escrevendo, o que acabou impregnando o próprio romance com uma metalinguagem que me pareceu, e ainda me parece, encantadora.
     Mais uma vez, não consegui. E eu apostei muito nesse livro, e ainda apostava até bem pouco tempo, quando comecei a perceber que o fato de eu não conseguir concluir o romance decorria de uma mudança de visão que fez meu olhar negar o que eu já havia escrito antes, e que até hoje me constitui em relação a tudo que escrevo. O que eu havia escrito em 2013, que foi o ano em que iniciei a escrita de Penumbra, não entrava em total harmonia com o que escrevia em 2015. Na verdade, não entrava em harmonia comigo.
     O fato de ter entrado na universidade, no curso de Letras, também influiu em minha relação com a literatura, tanto de forma positiva quanto de forma negativa. Se, por um lado, eu passava a reconhecer os motivos pelos quais a literatura existe (antes – e além – de ser apenas um impulso individual/subjetivo e uma expressão livre do pensamento, da alma, do ser, ela é um trabalho de arte que requer esforço e disciplina), por outro esses motivos me apresentavam de uma vez por todas a impossibilidade de escrever. Não que isso signifique que eu tenha parado de escrever, e não que isso signifique também que, quando escrevo, obedeço cegamente a determinadas regras. Nunca obedeci, nem vou obedecer. Não de forma consciente. Se eu escrevo, isso vem muito mais de minha subjetividade do que do trabalho com a palavra, esta – a palavra – que desde Penumbra me persegue, aparecendo antes do sentido. A palavra como um desenho sobre o papel – e também sobre a carne (viva). A palavra como marca de tinta que sai da ponta da caneta que minhas mãos seguram para fazer deslizar pelo papel marcando sua existência.
     Escrever tornou-se um exercício em si e por si, relacionado tanto ao fato de que houve um momento de minha vida em que a criatividade pareceu escassear de forma assustadora, quanto ao fato de que eu pareci fadado a acreditar que a ausência de criatividade era eterna e acabei me alimentando dela e, assim, alimentando-a também. Construindo-a. Fazendo-a crescer. Um exercício paranoico de fome que tolheu as possibilidades que poderiam ter surgido e assim me deixou preso a um destino vazio, no qual eu estaria condenado a repetir a própria dor insossa desse vazio. Coisa inútil e deprimente. Cansativa. Tediosa. Talvez por isso eu nunca mais escrevi.
     Já cheguei a decretar a morte do escritor que já não sou. Fiz isso num livro intitulado Ode ao fim. Um texto em prosa (poética, se quiser), no qual me denomino ex-escritor e aponto a possibilidade de um renascimento, como se eu fosse uma fênix. Talvez parte desse projeto tenha logrado êxito: comecei a escrever, entre o final do ano passado (2017) e início deste (2018) um livro intitulado Além-mar – onde o sol se põe, que era para ser escrito em parceria com uma amiga, Rakel T., mas que acabei escrevendo sozinho. Ainda não terminei o livro, mas ele está próximo de ser concluído. Espero que seja. Quero ter esse filho. Escrevi parte dele nas últimas férias, e espero as próximas (daqui a alguns dias, já!) para conseguir cumprir essa tarefa que, como todas as outras, me dei com tanto entusiasmo, esperando, desta vez, não morrer no caminho. Porque é verdade que morro um pouco quando não consigo terminar um projeto iniciado com tanta vontade.
     Cabe dizer ainda que, no intervalo entre a escrita dessas obras, desde 2012 até hoje, escrevi também poemas e contos, muito provavelmente pelo desejo de concluir textos. Como são gêneros curtos, escrever contos e poemas me permitiu provar desse gosto de conclusão, de acabamento, que tão raramente eu provava. Além disso, meus textos passaram por uma mudança em estilos e temas, algo em que não vou me aprofundar, mas a partir do que posso dizer que meus textos passaram a ter mais poesia e sensibilidade, um trabalho maior com as palavras; tanto pelo fato, já comentado, de que elas – as palavras – agora saltavam aos meus olhos antes mesmo de seus sentidos penetrarem minha intimidade, quando pelo fato de que tantos anos de escrita me fizeram amadurecer naturalmente, apurar meus gostos; definir, a partir das leituras a que tive acesso e de minhas experiências pessoais – e de tudo o mais que possa ter relação com isso –, uma determinada forma de escrever, determinados pontos dos quais partir. Porque as palavras podem ser definidas pelo autor assim como podem defini-lo. É uma relação que, em seu ápice, torna autor e obra uma mesmíssima coisa.
     Talvez seja o que sou hoje. Se não me vejo escrevendo, simplesmente não escrevo. Não me obrigo mais a escrever (talvez um dia tenha me obrigado, não recordo bem). Eu tenho sido mais livre, e não lamento por isso. Não me defino como escritor propriamente, nem tenho certeza se escrever é uma necessidade; mas, hoje em dia, quando escrevo, essa escrita é, deveras, o fruto de uma necessidade genuína. Pode parecer boemia. Falta de disciplina. Preguiça. Não digo que não é, mas essa consciência faz parte do próprio motivo pelo qual comecei a escrever e atravessa toda a minha relação com a escrita (literária), que na maior parte das vezes creio ter sido genuína. Não tenho sabido fingir em minha escrita, e talvez por isso só tenha escrito sobre coisas que verdadeiramente sinto, e no momento em que as sinto. Parece digno.
     Eu não sei fingir, não sei contar histórias... (não mais como contava, no começo disso tudo, em meus sonhos pré-adolescentes). E tudo isso aponta para uma percepção profunda de mim mesmo, sobre mim mesmo. Estar escrevendo pouco significa também quão pouco tenho vivido, quão pouco tenho sentido, quantos dias tenho percorrido como se percorresse tantas páginas em branco sem deixar nenhuma marca de tinta, nenhum mínimo desenho que possa servir de memória para recordar.
     E, afinal, o que tudo isso tem a ver com a literatura contemporânea? Porque é verdade que não tem nada a ver, pelo menos em minha visão neste momento, com reflexões acerca do mercado editorial, dos leitores e das vendas... Não me interesso por nada disso. E talvez me questionem – quiçá me crucifiquem – pelo fato de que a sobrevivência da literatura depende disso, desse sistema. Não, não acho que dependa. Não de uma forma determinista. E não creio que dependa justamente porque creio menos ainda numa literatura que já nasça – ou que seja gerada – preocupada com essas questões. Nunca vou acreditar que a literatura precise desses mecanismos em si, embora acredite que são, também, importantes.
     O que eu quero dizer, na verdade (e foi apenas para dizer isso que eu falei tudo que eu falei antes), é que a literatura deve nascer, antes de tudo, no coração do artista; em um ninho terno, ou na carne viva. A literatura deve nascer de um desejo legítimo, de um impulso de vida que possa brilhar, ao menos por um instante, como uma centelha de esperança e salvação, mesmo que nunca se possa definir quem pode ter essa esperança ou, da mesma maneira, ser salvo por aquele impulso.
     Muitos me acusarão de estar sendo idealista e romântico. A verdade é que nunca deixei de ser...  

Escrito da noite de 25 para 26 de maio de 2018.
Delmiro Gouveia, AL.


Sobre o autor:

Ricardo dos Santos Silva (ou Ricardo Santos) nasceu em Delmiro Gouveia-AL e cresceu no pacato povoado Capim Grosso, no interior de Canindé de São Francisco-SE. Está concluindo a graduação em Letras/Português, curso que escolheu por amor à literatura. Escreve desde os doze anos de idade. Passada uma década desde então, continua escrevendo, e não o faz por menos que uma necessidade íntima que ora lhe parece uma bênção, ora uma maldição.


3 comentários :


  1. Amei! Como você tem um maravilhoso tesouro literário a nos revelar!Tudo tem sua hora, tudo tem seu tempo e você sem saber, escolheu amadurecer os frutos para poder ofertá-los ao saboreio. Escreve com o útero (gerando o filho com muito amor). Longa vida à sua obra que já se materializa com muita força e estilo. Estamos prontos a sua espera.

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  2. Parabéns, querido! Pela escrita e por partilhar. 💛

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  3. Sempre soube desse tesouro escondido dentro de você. Não tive a oportunidade de vê-lo crescer mais eis aí os frutos de alguém nunca deixa de sonhar. Muito lindo todo o seu trabalho.

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