Matheus Peleteiro, a sátira como resistência em “O Ditador Honesto” [ENTREVISTA]



Não me assustarei se chegar o dia em que uma apresentação a Matheus Peleteiro será desnecessária. É inegável o talento do jovem escritor baiano. Autor de “Mundo Cão” (romance), “Notas de um megalomaníaco minimalista” (novela), “Tudo que arde em minha garganta sem voz” (poesia), “Pro inferno com isso” (contos), Matheus Peleteiro estará lançando hoje (11/08 das 13h às 14h) e amanhã (12/08 das 18h às 19) seu mais novo trabalho: “O Ditador Honesto”, na Bienal de São Paulo.

As palavras que seguem são sobre a atual conjuntura literária e sobre como sua obra é inserida nela. Em especial, falamos sobre “O Ditador Honesto”.

Foto: Arquivo pessoal do autor


Aliedson Lima – A primeira e a última pergunta de minhas entrevistas são clichês que não vejo necessidade de abrir mão. Vamos lá: quem é Matheus Peleteiro?

Matheus Peleteiro Ah... As perguntas clichês são as mais difíceis. Incumbem ao entrevistado um suposto dever de inovar, quando, na realidade, não se têm muito o que dizer sobre. Acho que fico com a forma que me apresentei no “O Ditador Honesto”: sou aquele que ainda insiste em acreditar na literatura como um instrumento de mudança e na sátira como uma forma de resistência.

A. L. – Você já transitou pelo romance, novela, poesia, conto, ensaio e agora esse novo romance do qual falaremos, uma distopia – que percebemos ser ambientada no Brasil, vale lembrar. O que seu leitor pode esperar pela frente? Crônicas? Textos pro teatro? Pro cinema? Teoria literária? Um “Cinquenta tons de blablablá”?

M. P. Textos para teatro e o cinema são gêneros que me atraem, mas quanto aos outros citados, mantenho distância, rs. Talvez escreva uma fábula, em breve. Já tenho o esboço.

A. L. – Se em sua obra há uma pluralidade quanto à forma, há um elo unificador no tema: o homem e sua existência conflituosa. A última interrogação acima foi uma “zoas” para falarmos sobre o mercado. Como o mercado encara este tipo de produção artística que se assemelha à sua obra? 

M. P. Ele acolhe algumas e rejeita outras. A poesia, por exemplo, é uma piada no mercado editorial. Editoras que publicam livros de poesia são constantemente chamadas de guerreiras e elogiadas – por poetas, é claro. Percebo que o público, os leitores, encaram bem a minha pluralidade, embora gostem mais de romances, porém, quando falamos de mercado, falamos também de distribuição, de comercialização e visibilidade. Neste sentido, acredito que ainda preciso de mais alguns milhares de seguidores nas redes sociais para que possa ser abraçado por esse “mercado”, que também pode ser chamado eufemisticamente de indústria nos tempos atuais, rs. Mas, enquanto isso, tenho me inserido de forma positiva. Cada dia sou mais lido, isso é bom.

A. L. – Uma pesquisa do Instituto Pró-Livro, realizada em março de 2016, revelou que o brasileiro lê em média 2,43 livros por ano. Além disso, o estudo diz que “30% da população nunca comprou um livro”. Matheus Peleteiro, como um autor nacional sobrevive em meio a esses números?


M. P. Agricultura de subsistência, formação em advocacia, formação em medicina, revisões, traduções, são muitas as formas a se considerar, mas nenhuma delas é a literatura. Se um escritor quer sobreviver de literatura e não de palestras, precisa investir muito nas redes sociais ou procurar algum outro emprego que, necessariamente, irá atrapalhar a sua produção, assim como Bukowski e os correios. Ou um escritor vende a sua literatura ou morre por ela. Porém, Bukowski venceu encontrando um meio-termo entre essas duas máximas. Minha meta é alcançar um novo meio-termo na sociedade moderna.

A. L. – Somado a este problema da média de leitura, temos o problema do mercado que – muitas vezes por uma medida de sobrevivência ao primeiro problema – acaba condicionando o leitor a ler os estrangeiros do momento, os youtubers, a uma pequena elite de nossa literatura que já construiu um nome, etc. A impressão que fica para o leitor é que a literatura nacional contemporânea é carente de bons nomes. Gostaria que citasse alguns escritores que você gosta e que, por essas e outras razões, acabam marginalizados e/ou não recebem o reconhecimento que merecem.    

  
M. P. Nos dias de hoje, acredito que, para publicar um livro, o autor deve achá-lo incrível, e não apenas um bom livro, haja vista a enorme quantidade de trabalhos existentes. Porém, embora a poesia esteja muito bem por aqui, tenho encontrado pouquíssimos romances contemporâneos que realmente me inquietem. Sinto falta dos livros que golpeiam. Talvez por isso João Ubaldo tenha dito, quando já bem velho, que a partir de então só leria os clássicos.  Os grandes livros sobrevivem. De fato, existem coisas muito boas acontecendo, mas já não temos tempo nem paciência para garimpar, e o mercado está inflacionado por escritores que publicam livros somente para suprir seus sonhos de serem escritores ou seus vícios de prolixidade...

Posso dizer que sou um verdadeiro garimpeiro da literatura contemporânea, porém, confesso que mais me decepciono pela normalidade e quantidade de obras “ok”, que trazem mais do mesmo, que me surpreendo. Porém, a cada 10 autores que me decepcionam, um me enche os olhos, seja por conta de elementos trazidos do dia-a-dia, que me encantam através de peculiaridades na maioria das vezes brasileiras, seja por conta da abordagem de assuntos que considero primordias. Provavelmente esquecerei de alguns, mas posso citar: Diego Moraes, Fabiano Lima, Rojjeferson Moraes, Joe Arthuso, Aline Bei, Verena Cavalcante, Aliedson Lima, Carlos Almir, Ana Flavia Sarti, Ian Viana, Roge Weslen, Bruno Goularte, Vitor Oliva, Fernando Koproski, Mario Bortolotto, Alexandre Rabelo, Jacques Fux, Antonio Fernando Borges. A maioria deles, poetas.

"Um artista não pode ter rabo preso, a única responsabilidade dele deve ser com a verdade expressa no seu trabalho. E se ele for humanamente terrível, que as pessoas o utilizem para compreender o humanamente terrível."


A. L. – O crítico literário Jonatan Silva disse que O Ditador Honesto é um periscópio saído da lama”. Fale-nos um pouco sobre este periscópio. O que o leitor verá através dele?

M. P. O que já é evidente, rs. Se eu disser, terminarão as interpretações e enxergarão somente o que digo aqui. Então, espero apenas que o livro seja como dois dedos forçando os olhos dos eleitores que buscam heróis a se abrirem.

A. L. – Apesar de não haver grandes conflitos na narrativa de sua sátira, você conseguiu armar uma grande tensão já nas primeiras páginas. Tensão que percorre de forma sedutora por toda narrativa, até culminar num final um tanto shakespeariano. O que permeia O Ditador Honesto é o riso de nossa própria estupidez. Gostaria que falasse um pouco sobre o processo de construção da obra. Além disso, como conseguiu tirar o enfado de um tema como a política?  

M. P. Ah, foi muito difícil tirar esse enfado, rs. Acredito que tirei pois sempre busco escrever um livro que gostaria de ler se fosse eu o leitor. O livro surgiu a partir da minha indignação, e requereu certo estudo, em diversos momentos, porém, o riso de nossa própria estupidez, como disse, acabou tornando-o leve e, por isso, para mim, mais interessante. Eu poderia desenvolver o livro em busca de uma lição de moral, de uma solução, mas decidi apenas desdenhar. Acho que isso tirou o enfado da política.

A. L. – Abre o livro uma epígrafe de um trecho de Hitler (a segunda). Na narrativa, o próprio Gutemberg Luz, o “ditador honesto”, em determinado momento, é comparado a ele. Vemos também uma referência ao Churchill, além de várias citações de Maquiavel. Na construção de seu narrador, houve um personagem histórico como plano de fundo? Alguém o inspirou?

M. P. Não. Gutemberg Luz, o “grande astro da história” é um sujeito perspicaz que estudou todas essas figuras para compreender como se conduz uma nação. Ele não foi inspirado em nenhum deles, mas pode ser considerado uma espécie de miscelânea de todos eles.

A. L. – No prefácio, você ressalta que, apesar do caos em que nos deparamos, “o artista encolheu a sua irreverência em razão do medo da má repercussão social; o atrevimento e a ambição se tornaram adjetivos pejorativos”. Comente esta afirmação.

M. P. Ah, a militância tem destruído a arte. Muitas vezes ela tem razão em contestar, mas limitar, calar, censurar, isso é muito triste. Os artistas têm demonstrado um medo muito grande ao se expressar, como pode? Como pode um escritor pensar duas vezes antes de escrever uma linha com medo de que interpretem de determinada maneira? Como pode um músico compor versos imaginando o que as pessoas vão achar? O conceito de contestação foi substituído por censura na contemporaneidade, isso é preocupante. Um artista não pode ter rabo preso, a única responsabilidade dele deve ser com a verdade expressa no seu trabalho. E se ele for humanamente terrível, que as pessoas o utilizem para compreender o humanamente terrível.

A. L. – Rubem Fonseca, uma grande referência pra você, disse em uma de suas raras palestras que para escrever "Agosto" empreendeu uma pesquisa que levou meses. O tema desse romance são os últimos dias de Getúlio Vargas, aquele agosto de 54. Em sua distopia, o “Ditador” é situado no ano de 2026, ou seja, sem um cunho histórico. Apesar da liberdade em estar criando outra realidade – que não deixa de ser a nossa – gostaria de saber se houver algum tipo de pesquisa para retratar este tema.

M. P. Inicialmente não pesquisei muito, apenas estruturei a sátira a partir de minha narrativa, porém, quando o primeiro esboço ficou pronto, notei que precisava argumentar alguns pontos de forma mais sólida, e então li alguns artigos críticos e afins que, obviamente, não serão notados, pois embora tenha lido textos escritos de forma acadêmica, os converti em sutis alfinetadas, rs.

A. L. – Matheus Peleteiro, por que as pessoas devem ler O Ditador Honesto?

M. P. Bem, eu não sei nem mesmo dizer o porquê de as pessoas deverem existir, contudo, posso dizer que ler O Ditador Honesto é uma forma de resistir. Vejo a sátira num ambiente sem perspectiva de melhora como uma nobre forma de resistência. Ler O Ditador Honesto talvez seja uma forma de dizer não.

A. L. – No livro, não lembro de ter lido as palavras “esquerda” e “direita” com uma conotação política. Vi um falso elogio ao fascismo – de onde parte a sátira. Nele, o novo presidente censura os órgãos de imprensa, legaliza o porte de armas para os cidadãos, instaura a pena de morte, entre outras medidas. E, naquela realidade, tais medidas surtem efeitos positivos, levando o país a uma harmonia nunca antes alcançada. Peleteiro, em algum momento você cogitou que pudessem usar esse discurso na tentativa de “mitar”?

M. P. Certamente, mas considero o que está escrito mais importante que a forma com que podem utilizar o discurso. O livro apresenta essa “interpretação de conveniência” o tempo inteiro durante a história, com as interpretações não poderia ser diferente. Alguns vão julgar o livro uma utopia, outros uma distopia. Para alguns, o cenário criado por Gutemberg é, de fato, um paraíso. Para outros, um inferno. Eu não sei muito bem distinguir os dois, por isso, prefiro não classificar.

A. L. – Agora percebi que esta última pergunta devo ao grande Antônio Abujamra. Matheus Peleteiro, há alguma pergunta que você gostaria de responder e não foi feita? Se sim, faça-a e responda-a.

M. P. Eu gostaria de falar sobre a comicidade das interpretações. Talvez a pergunta pudesse ser “você acredita que os leitores conduzirão a sua obra como uma crítica à determinada ideologia?”. Acho isso interessante, pois muitos leitores leem tentando me desvendar, tentando afirmar que bandeira estou tentando defender por trás da história que escrevi. Acho isso engraçado, pois, podem me condenar como pedante por não ter esperança de lado algum, podem me condenar irresponsável pelo mesmo motivo, mas não tenho fé nenhuma em nenhum deles e, por isso, trago a público a minha obra em desrespeito a todos esses lados.

A. L. – Aqui deixo os meus sinceros agradecimentos, desejando-lhe um bom êxito com O Ditador Honesto, que é indispensável a todos aqueles que desejam repensar nosso caótico cenário político.

M. P. Eu que agradeço pelo espaço, Aliedson! É sempre um prazer. Agradeço muito pelo carinho e atenção com o meu trabalho. Forte abraço!

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 Sobre o autor:
Nascido em Salvador – BA em 1995, escritor, tradutor, poeta e contista, Matheus Peleteiro publicou em 2015 o seu primeiro romance, Mundo Cão, pela editora Novo Século. Em 2016, lançou a novela intitulada "Notas de um Megalomaníaco Minimalista" (editora Giostri) e o livro de poemas "Tudo Que Arde Em Minha Garganta Sem Voz" (editora Penalux). Em 2017, publicou "Pro Inferno com Isso", seu primeiro livro de contos. Em 2018, assina, ao lado do tradutor Edivaldo Ferreira, a tradução do livro "A Alma Dança em Seu Berço" (editora Penalux), do poeta dinamarquês Niels Hav.


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