Berço de angústia: feminismo e existencialismo em Núbia Marques

O vinho do dia
Núbia Nascimento Marques de Azevedo

As palavras que seguem não pretendem dizer muita coisa, apenas quebrar um silêncio. Ainda que minha voz não encontre eco, contento-me em pensar que não me omiti quando tomei conhecimento da obra de Núbia Marques (1927-99). Arrebatado pela leitura de seu romance Berço de angústia, fui procurar mais sobre a autora. Há pouco dela circulando. Mais uma razão para este texto. E eu poderia começar falando sobre os seus méritos como artista plástica, pesquisadora, folclorista, romancista, poeta, contista, cronista, ensaísta, feminista. Mas começo com esta cena:
Família à mesa. O pai, um getulista apaixonado, acaba de descobrir que sua filha, então com seus 17 anos, lera o Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos. Pede que ela se retire imediatamente. Núbia obedece, mas com a consciência de que jamais repetiria os passos submissos da mãe. E foi coerente em sua rebeldia até o fim, dando à sua vida as cores de uma experiência poética: “sou poeta / mais nada.”
Com esse boom (necessário) do feminismo em nossos dias, não consigo entender como um livro desses, o Berço de angústia, é tão pouco explorado. Aliás, como a autora, que dedicou parte de sua vida na defesa da causa, é tão pouca explorada. Desconfio que o fato da Núbia Marques ser sergipana, fugindo muito do eixo em que a literatura tem vez e voz, seja uma das razões que levem a esse “esquecimento”.

Literatura e outros blues

    Publicado pela primeira vez em 1967, o romance é um retrato do cotidiano burguês em Aracaju. Cíntia alterna a narração com Rogério, seu marido. Em todo o livro, eles tentam nos convencer de que estão apenas preocupados em representar seu papel social. Papel imposto por uma sociedade hipócrita, que cospe regras e julgamentos a todo instante. O que não quer dizer muita coisa, já que desde sempre foi assim.
Ela, dona de casa.   Ele, homem de negócios. Ela que precisa ir à feira a passos largos, para dar tempo de voltar e preparar o café antes dele sair. Ele que precisa virar as costas e sair de casa, sempre que a tensão pede diálogo. Pede atenção. No melhor da DR, o cara foge. Não há o que discutir, sou o homem da casa. Cinema? Eventos beneficentes? Já não basta bater perna na feira? Está resolvido, te compro uma joia. Talquei?
Estamos em 1967. Se o enredo pode ser considerado banal, não podemos fazer o mesmo com o fato de uma mulher trazê-lo para o debate, justo na eminência dos momentos mais obscuros da Ditadura Militar. Ditadura que chegou a ouvir da própria Núbia o grito de “Diretas já!” Não pode ser banalizada também a forma que foi trabalhada a história. A influência do existencialismo no mundo pós-guerra refletia-se em todas as esferas da criação. Aqui, a poeta romanceia a angústia de uma solidão compartilhada. Ou melhor, duas solidões: “Rogério tem um silêncio pasmado nos lábios, desmaiado por distantes pensamentos. De concreto, as viagens. Viagem de Rogério é solidão para mim. Retorno de Rogério solidão pra nós dois.”
   Pensando na forma, este livro me lembra o Sursis, de Sartre. Cenas atropelando cenas. Recortes empilhados. Frequentes alternâncias de tempo. Ecos da infância. Flashes inesperados. Nesse quesito, o lirismo é o que diferencia o Berço de angústia. Enquanto Sursis aborda a angústia coletiva de um mundo que vai entrar em guerra, Núbia Marques trabalha em seu romance a angústia de um casal já em guerra, partindo para a queda. Não é só o debate sobre a liberdade da mulher, a forma que foi construída a narrativa também aproxima muito este livro dos nossos dias.
Para entender como chegaram àquele ponto, tanto Cíntia quanto Rogério voltam à infância. Tiveram traumas até parecidos. Rememoram a educação que receberam, tanto a de casa quanto a da escola. Esse trabalho com a memória afetiva nos revela que a angústia vem de lá. Do berço. Nubia Marques nos desenha as engrenagens de uma sociedade que condiciona aquelas crianças a se tornarem aqueles adultos. E representarem aqueles papeis. 
Berço de angústia não é só um livro sobre a angústia e a solidão de uma mulher mutilada. Consegue ser também um livro angustiante, escrito por uma poeta que tem necessidade do que faz. Ele integra uma trilogia, onde encontramos os dois títulos mais conhecidos da autora: O passo de Estefânia (1982) e O Sonho e a Sina (1992). Neste ano, completará vinte anos de sua morte. Pretendo encontrar tempo para me aprofundar mais em sua obra. Para me aprofundar mais nestas palavras. Não só porque Núbia Marques merece cada uma delas e muitas outras, mas porque eu preciso ir além de Berço da angústia. Preciso ir além do berço.   

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